quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

🖋️REVIEW - Banda Colírio Elétrico (por Miguel Correia)



Colírio Elétrico: onde o caos urbano se transforma em rito, poesia e som

Do Brasil chegam-nos os Colírio Elétrico, projeto que nasce num território específico, intenso e vivo. Peixinhos, em Olinda, não serve apenas como origem geográfica, serve como fundamento estético e como força motora de toda a expressão artística do grupo. A banda descreve o bairro como um lugar onde “o caos urbano particular, as ladeiras vivas e o trânsito de vozes, ritmos e conflitos” funcionam como laboratório sensorial permanente. É dessa mistura bruta que surge um som que desperta e que pulsa, “elétrico porque pulsa, colírio porque desperta”.


O Movimento Cultural Boca do Lixo contribui para moldar o espírito da banda. Ali, a atitude periférica, crítica e visceral é uma escola de resistência estética. A Colírio Elétrico afirma que leva para o palco “uma postura que não é pose, é vivência”, onde a sujeira se torna linguagem e o grito se torna poesia. O Festival Natora acrescenta a dimensão do encontro, um terreno fértil onde blues, rock, ruído, dança e improviso se dissolvem. A banda resume essa experiência ao dizer que ali aprendeu a navegar “entre o erudito e o popular, o caos e o rigor”.


As influências de Paulo Guimarães são parte estrutural dessa identidade. Com formação na Orquestra Sinfónica do Recife e uma escrita literária marcada por imagens intensas, Paulo cria pontes improváveis dentro da estética crua da banda. Os músicos reconhecem que “a disciplina orquestral e a imaginação indomável da literatura” geram a fricção que alimenta arranjos, sopros narrativos e letras visionárias. Daí nasce um som que se expande além da simples canção.


A criação acontece como escuta ativa do território. A banda explica que trabalha como quem recolhe “faíscas no meio da rua” para as transformar em fogo. Os ruídos quotidianos, as conversas atravessadas e os vendedores de esquina são matéria-prima de uma música que se constrói a partir do real. No palco, esta abordagem torna-se rito cénico. A banda afirma que a performance “não é reprodução, é reinvenção”, onde ruídos são mixados ao vivo, a poesia se estende e o improviso ocupa o lugar central.


A relação entre palavra e som segue a mesma lógica de liberdade. Não existe uma hierarquia rígida. Segundo a própria banda, “o que vem primeiro é a atmosfera, o estado poético que se decide convocar naquele momento”. Há espetáculos em que o poema abre caminho e outros em que o som cria a porta por onde o texto atravessa. Para a Colírio Elétrico, “a poesia acende a música, a música expande a poesia”, e juntas constroem um espetáculo que se aproxima mais de um ritual do que de um concerto tradicional.


Os espaços comunitários e independentes são fundamentais para a banda se manter viva. Eventos como o Sarau da Boa Vista, o Festival Natora e o Asteroides em Movimento funcionam como trincheiras culturais, lugares onde a arte pode existir sem moldes impostos pelo mercado. A banda sublinha que nesses espaços encontra “liberdade estética, política e poética”. São também laboratórios de experimentação, onde a interação com público e outros artistas alimenta novas ideias, novas camadas de performance e novas pulsações criativas.


É nesses encontros que a frase “mesmo com todo o caos urbano, ainda é através da arte que podemos nos conhecer e estabelecer relações humanas” ganha corpo. A banda relata que, quando atua nesses territórios, abre-se “uma clareira sensível dentro da cidade”, um momento de suspensão onde o público não apenas assiste, participa. O vínculo continua depois do concerto, prolongado em conversas, histórias partilhadas e reconhecimento mútuo.


Depois de “Desconcerto Blues”, dos EPs anteriores e das participações em documentários e movimentos culturais, a Colírio Elétrico entra agora numa nova fase. A banda prepara novas gravações que aprofundam a mistura entre blues, jazz, ruído urbano e poesia falada, com um foco maior em gravações de campo, arranjos de sopros eruditos e climas cinematográficos. Paralelamente, desenvolve projetos multidisciplinares onde música, palavra e performance se fundem num único gesto criativo.


A Colírio Elétrico reafirma, em tudo o que faz, a sua filiação ao território que a molda. É filha de Peixinhos porque transforma dificuldade em criação, caos em arte e quotidiano em gesto poético. O resultado é uma banda que não interpreta o mundo, provoca-o. Que não apenas atua, convoca. Que não só toca música, cria experiência.


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