domingo, 17 de maio de 2026

🎙️Entrevista - RISE OF KRONOS (por Miguel Correia)


Num panorama onde o death metal moderno procura constantemente reinventar-se sem perder peso e identidade, os Rise Of Kronos surgem como um exemplo claro de evolução consciente. Nascidos em 2021 das cinzas dos Surface, a banda alemã assumiu esta transformação não apenas como uma mudança de nome, mas como uma verdadeira redefinição artística. Mais sombrios, mais pesados e conceptualmente mais ambiciosos, encontraram em “Slaves Of Time” a afirmação plena dessa nova identidade.

Inspirado por temas como o tempo, a mortalidade e o confronto inevitável com forças maiores do que nós próprios, o novo álbum cruza agressividade sueca, precisão progressiva e intensidade hardcore com uma abordagem cinematográfica profundamente atmosférica. Entre referências à mitologia grega, reflexões existenciais e uma sonoridade brutalmente moderna, os Rise Of Kronos apresentam um disco que funciona tanto como descarga emocional como viagem conceptual.

Nesta conversa, Jhonnie, guitarrista, fala-nos sobre a transformação da banda, a construção de “Slaves Of Time” e a forma como o grupo encontrou uma identidade própria dentro do death metal contemporâneo.


O nascimento dos Rise Of Kronos surgiu como uma rutura deliberada com o passado enquanto Surface. O que sentiram que precisava realmente de mudar para justificar este “renascimento”?

Nunca se tratou apenas de mudar o nome. Sentimos que a banda tinha evoluído musical e visualmente ao ponto de a antiga identidade já não representar aquilo que defendíamos. Rise Of Kronos parecia mais sombrio, mais pesado e mais focado desde o início. Os temas, o som e toda a atmosfera tornaram-se muito mais intensos e cinematográficos. Por isso, o “renascimento” aconteceu de forma natural. Foi mais como fechar um capítulo e assumir totalmente a próxima evolução da banda.




“Slaves Of Time” explora temas como o tempo, a mortalidade e a sensação de estarmos presos a forças inevitáveis. Até que ponto este conceito reflete experiências pessoais dentro da banda?

Acho que toda a gente se consegue identificar com esse sentimento de alguma forma. O tempo controla tudo à nossa volta e, por vezes, parece impossível escapar à pressão, às expectativas ou a certas situações da vida. O álbum não é autobiográfico de forma direta, mas as experiências pessoais moldaram definitivamente as emoções por detrás das músicas.
Digressões, stress, envelhecer, perda… tudo isso muda a tua perspetiva. “Slaves Of Time” reflete essa sensação de lutar contra algo maior do que nós próprios.


Musicalmente, o álbum mistura agressividade, precisão progressiva e intensidade hardcore. Como conseguem equilibrar essas influências sem perder uma identidade clara?

Nunca forçamos influências no processo de composição. Ninguém está ali a dizer “este riff tem de soar desta ou de outra forma” ou “esta parte precisa de ser mais hardcore”. Isso acontece naturalmente porque cada elemento da banda vem de contextos musicais ligeiramente diferentes.
O mais importante é que cada música continue a soar a Rise Of Kronos. A energia, o peso e a atmosfera ligam tudo e acabam por criar a nossa identidade.


Temas como “Heresy” e “Poison Of The Gods” parecem profundamente ligados à mitologia grega. O que vos atrai nesse universo e como o traduzem para o vosso som?

Bem, “Heresy” é apenas a introdução, mas a mitologia grega sempre nos fascinou porque combina poder, tragédia, guerra, traição e destino. Essas histórias são antigas, mas as emoções por detrás delas continuam intemporais e relevantes nos dias de hoje.

Musicalmente, tentamos refletir essa dimensão e intensidade através dos riffs, das atmosferas sombrias e das estruturas dinâmicas. Queremos que as músicas pareçam enormes e cinematográficas, quase como uma banda sonora para esses mitos.



O título “Slaves Of Time” é bastante evocativo. Vocês olham para a música como uma forma de escapar a essa condição ou como uma forma de a enfrentar diretamente?

Provavelmente as duas coisas. A música pode absolutamente ser uma fuga da realidade, mas ao mesmo tempo também te obriga a confrontar emoções e pensamentos que normalmente tentarias suprimir.
Para mim, criar música é uma forma de processar as coisas. Não podes parar o tempo, mas podes transformar experiências, medos e memórias em algo significativo. Nesse sentido, a música torna-se uma forma de lutar contra essa sensação de sermos controlados pelo tempo.


Ao olhar para a tracklist completa de “Slaves Of Time”, existe uma forte sensação de fluxo narrativo. Abordaram o álbum como uma viagem coesa do início ao fim ou cada tema funciona como um capítulo independente dentro de um conceito mais amplo?

Era importante para nós que o álbum funcionasse como uma experiência completa do princípio ao fim. O fluxo, o ritmo e a atmosfera tiveram um papel enorme durante o processo de escrita.

Ao mesmo tempo, cada faixa tem a sua própria identidade e mensagem. Podes ouvir as músicas individualmente, mas juntas formam um quadro muito maior. Queríamos que o álbum parecesse uma viagem através de diferentes perspetivas dentro do mesmo tema central.





sexta-feira, 15 de maio de 2026

REVIEW - "AVIR" - INSVLA


A perfeição existe e chama-se “AVIR”. E quando vem assinada pelos INSVLA, torna-se impossível ignorar o impacto que deixa depois da última faixa terminar.

Confesso que, conhecendo o talento de Sienna, Pedro e Mário, não esperava nada menos do que algo excelente. Mas a verdade é que “AVIR” conseguiu destruir completamente qualquer expectativa que eu tinha criado. E talvez aí esteja a maior surpresa deste disco: perceber que “excelente” é uma palavra demasiado pequena para aquilo que este álbum representa.

Há discos bons. Há discos muito bons. E depois há aqueles raros trabalhos que parecem nascer destinados a permanecer. “AVIR” pertence claramente a essa categoria. Magistral, épico, intenso e profundamente humano, o álbum transporta-nos por uma viagem emocional onde cada composição soa pensada ao detalhe, mas nunca artificial. Tudo respira autenticidade.

A voz de Sienna Sally é um dos elementos mais hipnotizantes de todo o álbum. Existe nela uma doçura quase angelical, mas também algo perigosamente sedutor. É como o canto das sereias: atrai-nos lentamente para as profundezas de um oceano feito não de água e sal, mas de emoções, medos, ansiedades e cicatrizes que tantas vezes tentamos esconder de nós próprios. Nunca sabemos ao certo se estamos perante um anjo salvador ou uma entidade sombria que nos amaldiçoa com verdades que não queremos enfrentar. Só sabemos que queremos continuar a seguir aquela voz, mergulhar cada vez mais fundo, mesmo correndo o risco de nunca mais conseguir regressar à superfície da mesma forma.

Os growls de Tiago intensificam ainda mais essa dualidade. Funcionam como a manifestação física da escuridão que se esconde por detrás da suavidade da voz de Sienna. Porque por mais doce e celestial que ela soe, existe sempre algo inquietante, maquiavélico e emocionalmente manipulador na forma como nos prende. E é precisamente essa tensão entre beleza e desconforto que torna “AVIR” tão esmagador emocionalmente.

E depois existe Mário. A forma como usa a guitarra transcende a técnica e entra num território quase visceral. Mário toca como quem segura um bisturi: com precisão cirúrgica, delicada mas profundamente devastadora. Cada nota parece abrir pequenas feridas emocionais dentro de nós, deixando marcas impossíveis de ignorar. Cicatrizes expostas sem pudor, transformadas em beleza da mesma forma que a arte japonesa do Kintsugi transforma as falhas em algo ainda mais valioso. É magistral a forma como faz a guitarra respirar, chorar e gritar — como se as cordas fossem, elas próprias, cordas vocais carregadas de emoção humana.

Depois existe Pedro Antunes. Músico, compositor e ser humano de uma profundidade rara. Costumo chamar-lhe, carinhosamente, “Peter Pan”. Mas ao contrário da personagem original, Pedro não nos leva para uma Terra do Nunca onde permanecemos eternamente crianças. Leva-nos para um lugar onde somos obrigados a crescer. E muito.

As suas composições e letras funcionam quase como espelhos emocionais. Depois de ouvir “AVIR”, não regressamos iguais. Há qualquer coisa dentro de nós que muda inevitavelmente. Tornamo-nos mais conscientes das nossas fragilidades, dos nossos demónios, inseguranças e medos. E talvez o mais impressionante seja o facto de querermos regressar ao álbum repetidamente precisamente por causa disso. Voltamos faixa após faixa porque, no fundo, procuramos esse espelho. Procuramos enfrentar aquilo que a música nos obriga finalmente a encarar.

A força deste trabalho está precisamente na forma como consegue equilibrar peso emocional, ambiência e identidade própria sem cair em fórmulas previsíveis. Há uma elegância quase cinematográfica na construção sonora de INSVLA, mas também uma crueza emocional que torna cada momento genuinamente sentido. Não é apenas música. É experiência. É catarse. É arte transformada em som.

Poucas vezes um álbum de estreia surge com esta maturidade, esta confiança e esta capacidade de deixar marca logo à primeira audição. “AVIR” não pede atenção; exige-a. E merece-a do princípio ao fim.

Sem exagero, é um dos melhores álbuns que ouvi na última década. Talvez mais do que isso.

Obrigada, INSVLA, por tudo.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

🎙️Entrevista - INSVLA


Por vezes o underground nacional surpreende-me com projetos que recusam ser mais do mesmo, não se rendem a fórmulas fáceis e avançam por um caminho artístico alicercado na honestidade criativa e na emocionalidade humana. 
E é assim que surgem os INSVLA que entre atmosferas densas e instropectivas, intensidade emocional e uma identidade sonora única, lançam o seu primeiro álbum, "AVIR"
E enquanto fã da banda não podia deixar escapar a oportunidade de os entrevistar, no momento que medeia o lançamento do álbum em formato físico e o concerto de apresentação deste trabalho. 
Convido-vos a mergulharem no universo mágico de INSVLA!


Antes de falarmos do que está por vir vamos viajar um pouco ao passado recente dos Insvla. Como se juntaram o Pedro, o Mário e a Sienna? 

Pedro - Começou com um copo num bar de praia em Sesimbra, ironicamente, ainda nem tínhamos definido que o nosso primeiro trabalho teria o oceano como base poética. Na verdade, eu e o Mário crescemos a tocar juntos, ainda na época do secundário, e já tínhamos estado em bandas juntos, mas não tocávamos nem criávamos juntos desde 2012. Depois de ele me desafiar algumas vezes para voltarmos a tentar criar um projeto em conjunto novamente, e me falar da Sienna para a voz, decidi que estava na altura de voltar a experimentar, e aceitei essa reunião com eles perto da praia, estávamos em fins de 2022. Nenhum de nós sabia muito bem nessa noite no que isto ia dar, mas aqui estamos nós três anos depois, como Insvla, e com um álbum em mãos. 

Sienna - O Mário mandou-me uma mensagem a perguntar se eu aceitaria ser vocalista de um projeto novo, na altura descreveu-me como tendo uma veia mais comercial, e eu já estava afastada da música há 5 anos, e tava especialmente reticente com o nicho do Metal devido a desilusões seguidas no passado. Como sempre admirei muito o trabalho do Mário enquanto guitarrista e compositor, e a ideia de algo mais mainstream me agradou, decidi experimentar. Eu não conhecia o Pedro, mas fiquei a conhecer nessa noite em que nos juntámos ao pé da praia, e o resto aconteceu naturalmente. Mais tarde, com a composição que fizemos em conjunto , acabámos por regressar às influências de Metal, porque já faz parte da nossa identidade artística, mas por essa altura já estava tão inspirada que o ressentimento que tinha guardado durante anos desapareceu. E assim estava iniciado o meu percurso com Insvla. 


Apesar de só agora lançarem o álbum de estreia, já se estrearam nos palcos nacionais. Como foram as experiências ao vivo? 

Pedro - O nosso concerto de estreia foi inesquecível para mim, tanto pela sensação de viver estas músicas no palco como pelo carinho de tantas pessoas que lá estiveram para nos ver. Sinto que as pessoas que nos seguem sentem mesmo estas canções no coração, e dão-nos muita força. Foi também um concerto de abertura para os Cellar Darling, que são uma banda maravilhosa, da qual já éramos fãs e ficámos ainda mais depois de os poder conhecer. Tudo nessa noite foi para lá de especial. Depois desse concerto, apenas atuámos no Festival Rock dos Romanos, onde estávamos em grande contraste com bandas muito mais “pesadas” que nós, e que foi muito enriquecedor porque nos pudemos apresentar a um público bastante diferente, e mostrar a banda a novas pessoas que não nos conheciam. Foram experiências muito diferentes, mas ambas especiais por motivos distintos. Agora estamos ansiosos para levar o álbum a mais palcos! 

Sienna - Realmente foram experiências totalmente diferentes! A nossa primeira vez em palco foi muito intensa, especialmente por ser a estreia da banda ao vivo, com as expetativas todas que isso acarreta, e por estarmos a apoiar Cellar Darling, que era uma banda internacional e que já ouvíamos e admirávamos. Foi uma noite muito bonita mesmo. No segundo concerto, apesar de na minha opinião sermos uma banda com mais ambiência noturna, tocámos durante o dia, num cartaz muito diferente de onde seriamos normalmente inseridos. Dessa vez tínhamos mais confiança ao vivo depois do bom feedback do primeiro concerto, e de termos tido mais ensaios para palco, e foi muito bom aparecer num cartaz tão contrastante. Adorámos o festival , fomos muito bem acolhidos pelos organizadores, e apesar do publico não ser o que mais ouve o nosso estilo, também nos sentimos muito bem aceites por eles após a atuação. Ainda temos fotos lindíssimas que nos tiraram nesse dia e vieram entregar em mãos, já impressas. 




Nas vossas composições líricas e instrumentais existe uma forte componente imersiva, atmosférica e emocional. Como foi o processo de composição destes temas? 

Pedro - A composição saiu bastante naturalmente ao início, com um foco posterior na experimentação em banda, e no melhoramento da produção com o nosso produtor Fernando Matias. Em todas essas fases estivemos em modo de composição e construção até chegar ao produto final. Felizmente a nível criativo foi um processo fácil e natural, eu já tinha algumas músicas escritas quando iniciámos o projeto, assim como o Mário tinha ideias em gaveta para explorar. Juntando a voz da Sienna às ideias que já existiam, mais as composições dela nas partes que faltavam para as demos instrumentais, e melhorando aquilo que sentimos que podia ainda crescer, acabou por fluir tudo de forma simples, como peças que se vão encaixando.

Sienna - A nível vocal, o meu processo foi muito prazeroso. Eu identificava-me bastante com a sonoridade das demos, não era difícil sentir a emoção para compor as partes de voz em falta. Depois juntamente com as letras do Pedro que me foram entregues, para mim foi muito fácil colocar a emoção que eu sentia tanto com o instrumental como lendo a poesia. Em várias músicas do álbum estão linhas bocais que eu criava e o Pedro escrevia a letra ao escutar as minhas ideias. Também pude escrever a letra para a “Syren Arya", porque imaginei uma história inteira através do instrumental, que pela sua ambiência já sabíamos ser sobre sereias. Eu tive a ideia para o que a música iria narrar, e o Pedro recomendou que fosse eu a escrever esse poema. Em geral, fiz um pouco de tudo para este álbum, o que me deixa muito realizada, e foi um processo bastante fluido. 


Há um lado conceptual em INSVLA? 

Pedro - Eu diria que sim, mas é um conceito bastante vasto, nada limitador. INSVLA é latim para “ilha”, que neste caso é uma metáfora para o isolamento, para alguém que foge das multidões e procura o isolamento, o silêncio para estar consigo mesmo. Na verdade somos todos ilhas, cada um de nós, cada um diferente e único, com o nosso mundo interior próprio e individual, mesmo quando estamos rodeados de outros. Ao mesmo tempo, este nome evoca a criação de um espaço isolado de todos os outros, onde podemos criar e fazer o que quisermos em silencio e solidão, um local que pode conter aquilo que quisermos. Pessoalmente isso é o que este projeto representa para mim, um local imaginário onde posso estar só com os meus pensamentos e emoções, e colocar ou criar aquilo que eu desejar. Por outro lado, a ideia é passar esse mesmo espaço seguro ao ouvinte, de estar num mundo à parte, isolá-lo da realidade, apelar-lhe à reflexão, e criar um espaço onde tudo pode acontecer, mas em ambiente seguro. Penso que a nossa veia conceptual é esta, e as músicas vão representando vários locais, personagens e histórias que vamos colocando nesta “ilha”. O objetivo é continuar a expandi-la, claro! 



A vertente estética cinematográfica da vossa imagem e videoclips aliada à intensidade musical, transforma canções em narrativas que nos prendem de forma única. O que vos interessa mais enquanto criadores: provocar impacto emocional, criar ambiência ou contar histórias? 


Pedro - Creio que o impacto emocional é o que mais importa para mim, quando penso no ouvinte. Poder tocar a pessoa de alguma forma, para que se sinta menos sozinha ou pense um pouco sobre determinado assunto. Antes de trazermos as músicas para o público, criámo-las em busca desse sentimento de introspeção e para desabafar, dar alguma cura às nossas feridas internas, por isso ao partilhá-las é o que desejo provocar no ouvinte. Se contarmos uma história ou criarmos um ambiente mas o impacto emocional disso não existir, então vai faltar sempre alguma coisa. Mas é inegável que a narrativa e a ambiência são ferramentas muito importantes para despertar emoções, então acho que está tudo muito interligado. 

Sienna - Eu creio que conseguimos as três coisas que mencionas. Quando penso nas ideias que me surgiram para os nossos videos, de facto sinto que tento atingir o impacto emocional, mas através de uma imagem, que por sua vez veio da ambiência criada pela musica. Como a nossa música é bastante visual, eu consigo ter imagens na cabeça rapidamente quando a oiço, e a partir daí começo a conceber os storyboards e imagem da banda no universo da música em questão. É aí que entra novamente a parte de contar uma história, que também foi aquilo que impulsionou a escrita da música de início. É como se fosse um processo em círculo na verdade, são as três bastante importantes para mim. 


INSVLA remete para uma ideia de isolamento, refúgio, introspecção . AVIR, o nome escolhido para o álbum de estreia significa Aquatic Victim-Instead-of-Rescuer syndrome, também conhecido como “Drowning for love” e descreve um cenário trágico onde um salvador se torna em vítima enquanto que a vítima sobrevive na maioria das situações. Normalmente envolve familiares do sexo masculino que mergulham em águas pouco conhecidas para salvar crianças. Depois de escutar o vosso álbum, fiquei com uma dualidade de sentimentos: por um lado este salvador e esta vítima apresentam-se como uma mesma personagem, em que não se trata de morrer um para se salvar o outro, mas de algo profundamente emocional e pessoal: a catarse de emoções, o enfrentar demónios e “matá-los” para que o EU interior se reconstrua e sobreviva. Por outro lado há a intensidade de uma alma que se afunda num sentimento tão intenso que se anula a si própria para que o outro cresça, exista e se fortaleça, remetendo para um cenário de relações abusivas. 
Qual a ligação entre o nome da banda e o nome do álbum? Existe algo de verdadeiro nesta minha dualidade de sentimentos?

Pedro - Existe sem dúvida algo muito verdadeiro na dualidade que mencionas. No que toca a conteúdo lírico ou metafórico não sou de me explicar demasiado porque acho que cada pessoa deve retirar aquilo que sentir que faz sentido, mas comentando essa tua descrição, de facto o síndrome não é linear quando o colocamos neste álbum; existe sim um forte foco nas consequências de tentar “salvar” algo que não está nas nossas capacidades, nem sequer nas nossas mãos, mas ao mesmo tempo há uma forte autoreflexão que é feita ao lidar com essas situações. Quando nos anulamos perante o outro, ou perante um padrão tóxico que seja, e nos deixamos afundar por essas situações, só saímos delas quando há uma grande revolução interna, diria mesmo uma morte de uma versão nossa. O espelho na capa do álbum que se ergue de um mar revolto passa exatamente essa mensagem: para saírmos ilesos das águas turbulentas temos que nos enfrentar a nós próprios, olhar a fundo para o nosso reflexo e nem sempre gostar do que vamos encontrar. Há uma dicotomia entre escolhas : entrámos no mar perigoso, que parte nossa vamos deixar afogar para que nos possamos salvar? 


Sienna -
Sim, concordo que o álbum fala dos dois lados: tanto sobre a nossa vitimização interna como sobre a sobrevalorização do outro em detrimento do nosso próprio bemestar, o que também acaba por dizer muito sobre nós na verdade, e sobre como nos vemos e como falamos connosco mesmos. Não há propriamente uma ligação entre o nome da banda e o do álbum. O “AVIR” é como que a base do tal processo de afogamento que é mencionado constantemente ao longo das músicas, em cenários e situações diferentes. Mas isso acaba por estar sempre relacionado com o nome Insvla , claro, porque é sobre cada um de nós, enquanto ser individual, e estas emoções e sensação de afogamento ou necessidade de salvar algo são tão humanas, tão universais, que acabam por estar presentes em toda a gente, independentemente de, como o Pedro mencionou antes, cada um de nós ser uma “ilha”. 


Fazer um álbum de estreia tão forte, épico e intenso é loucura, risco ou uma forma de estar? 

Pedro - Obrigado por usares essas palavras para descrever o “AVIR”, foi um grande elogio! Vou escolher a opção “forma de estar”, porque durante o processo não pensámos que o álbum iria, ou deveria, ser épico, intenso, ou outra classificação. É o feedback das pessoas que o tem classificado para nós. A nossa preocupação foi ser honestos connosco próprios enquanto artistas, e exigentes enquanto criadores, e o foco foi apenas fazer música que consideramos boa, que nos deixa felizes e cuja criação funciona também como processo terapêutico. Nestes três anos passámos tanto tempo com estas músicas que acabámos por perder um pouco a noção de como as classificar, honestamente. Sabemos apenas os sentimentos que cada uma nos evoca. O “AVIR” saiu como saiu, e agora deixamos que cada ouvinte o classifique da forma que quiser, há muito pouca coisa premeditada em relação a resultados e reações a este álbum. 

Sienna - Também escolho a forma de estar, sem dúvida. No fundo as músicas foram criadas com as nossas emoções , as fases que vivemos, as pessoas que trouxemos tirámos das nossas vidas, e fazer arte para expressar isso ou para tentar curar algo é uma forma de estar. Há alguma loucura também, claro, na experimentação, no facto de termos que nos soltar de amarras e visualizar as coisas face ao sentimento, é sempre algo que transcende a realidade. Há que abraçar esses delírios para não nos preocuparmos com a expectativa dos outros e criarmos livremente. Eu acho que toda a arte precisa de um pouco de loucura, senão dificilmente acontece. 


No próximo dia 16 de Maio vão estrear AVIR ao vivo. O que nos podem revelar sobre o que estão a preparar para esta data tão importante? 

Pedro - A única coisa a revelar é que vamos tocar o álbum na íntegra, e com quem nele participou. Vamos ter o nosso GussWhat no baixo, que gravou as suas linhas maravilhosas no “AVIR”, sempre com o seu cunho próprio; vamos ter a honra de trazer a autora Sandra Carvalho a palco para declamar o poema da “The Drowning”, e claro, o Tiago Oliveira, que gravou a “The Monstress”. De resto, o Caesar Craveiro vai estar na guitarra de apoio e está a fazer um trabalho incrível com as nossas músicas; e o Manu, que sempre nos acompanhou ao vivo, vai ocupar novamente a bateria. De resto, estou muito ansioso para poder ver novamente as pessoas que nos apoiam e poder discutir o álbum com elas após o concerto, acho que vai ser uma noite inesquecível mesmo! 


AVIR é auto-editado e tem edição em formato físico. A auto-edição foi uma opção ou uma consequência da forma como está organizada a indústria musical? E porquê optar pela edição física numa actualidade onde o digital se impõe? 

Pedro - Na verdade nós quisemos começar por um EP, e foi por isso que começámos a lançar singles tanto tempo antes de ter o álbum. Mas, à medida que a composição se foi desenvolvendo, percebemos que estas músicas entram todas no mesmo universo, e que fazia sentido lançá-las em família, e foi aí que a ideia do EP foi riscada e decidimos arriscar um LP completo. Quando essa decisão foi tomada, já haviam singles do álbum cá fora, e as editoras não aceitam fazer contrato com música já lançada, portanto percebemos logo que iriamos lançar o “AVIR” em formato independente. Para ser sincero, e não pensando no que poderá surgir daqui por diante, não estou minimamente arrependido, porque já tendo lançado álbuns através de editoras antes, não estou a notar grande diferença, sem ser que não gastei centenas de euros num contrato e a minha banda pode fazer o que quiser com o seu material. Tem as suas desvantagens, porque temos que ser nós a fazer o trabalho todo de contactar imprensa e conseguir que nos oiçam, e tudo isso ocupa imenso tempo e pode ser muito desanimador, mas mesmo com esse peso na balança, até agora estou a preferir este lançamento independente e livre de amarras. 

Sienna - Fizemos edição fisica porque o CD é um clássico! Nós ainda vimos de uma geração onde existiam cassetes, depois os CDs, depois os DVD, quando não havia ainda a parte digital, e quisemos honrar isso. O CD é uma forma de não deixar morrer a parte simbólica e colecionista que um álbum físico tem. É também mais uma forma de expressar arte, de acrescentar à parte musical, através do booklet e da sua arte, a imagem da banda na fotografia do CD, a poesia das letras no livreto, os agradecimentos a quem colaborou, e no caso do “AVIR”, a dedicatória que deixámos impressa lá dentro escrita manualmente e assinada por nós. Acaba por ser um bem precioso e um marco no mundo físico, não apenas um conjunto de dados computarizados. Acho que não devemos deixar morrer a parte física da música, se o digital um dia desaparecer ficamos sem nada. Há quem esteja agora nestes últimos anos a ressuscitar a sua coleção de vinis, sinto que o físico esta a voltar a ser relevante, e um vinil também será inclusivamente algo em que provavelmente vamos investir, se tivermos vendas e oportunidade para tal. Para nós, sentir este álbum na mão mostra que ele existe, podemos agarrá-lo, folhear, etc, essa sensação não é possível com plataformas digitais e é algo de que espero nunca abdicar. 


Sentem que a cena nacional está aberta a propostas mais atmosféricas e emocionais como a vossa?

Sienna - Sim, temos sentido alguma abertura, nem que seja pela curiosidade. Ainda não temos assim tanta experiência para poder responder a isso com certezas, porque só demos dois concertos ao vivo, e este álbum acaba mesmo agora de sair. Talvez daqui a um ano esta seja uma pergunta à qual vamos saber reponder com mais clareza depois de vivermos esta fase um pouco mais tempo. Por agora temos reparado que as pessoas são pelo menos curiosas acerca do nosso material, e têm sido receptivas. Sabemos bem que bandas atmosféricas e emocionais internacionais conseguem muito bem encher uma sala aqui em Portugal. Agora, uma banda como a nossa a nível nacional, ainda é algo que temos que estudar com a nossa experiencia daqui para a frente. 



Que mensagem querem deixar a quem leu esta entrevista? 

Pedro - Se quem está a ler isto ainda não nos conhece, espero que esta conversa com a Rosa tenha desperto alguma vontade de conhecer. Se já nos conhecem, quero agradecer de coração por todo o apoio que têm dado a INSVLA, e espero que o “AVIR” seja um álbum que inspire de alguma forma, que possa ser uma forma de conforto para quem estiver a identificar-se com alguma parte do seu conteúdo, ou que seja simplesmente uma escuta prazeirosa. Qualquer uma dessas hipóteses já será uma vitória para nós. E obrigado por esta entrevista tão interessante! 

Sienna - Obrigada por nos lerem, se chegaram até aqui foi porque de alguma forma nos querem conhecer, e esperamos que gostem da nossa arte! Para quem já nos conhece e está a ler para saber mais, quero agradecer pela força , pela iniciativa de partilha, pelas palavras de apoio e entusiasmo. Temos ficado muito felizes por sentir que se reveem nas músicas, por cada mensagem que nos deixam.. tudo isto é muito importante para nós e motiva-nos enquanto banda. A música que foi feita foi a nossa forma de expressar as nossas emoções, mas ganha realmente vida própria quando é exposta e percebemos que não estamos sozinhos. Uma banda sem público não é a mesma coisa, de todo. Esperamos que continuem a fazer esta viagem connosco! E um grande beijinho à Rosa, muito obrigada por pela segunda vez nos dares oportunidade de falar sobre INSVLA, e também por seres tão dedicada a explorar e a sentir a nossa arte.




domingo, 3 de maio de 2026

🎙️Entrevista - DISTRAUGHT (por Miguel Correia)




Com mais de três décadas de percurso, os Distraught são um nome incontornável do thrash metal brasileiro. Desde o início dos anos 90 que a banda construiu um caminho assente na consistência, na agressividade sonora e numa identidade muito própria, sempre fiel às raízes do género, mas sem nunca abdicar de evoluir.

Ao longo dos anos, atravessaram diferentes fases da cena, do underground analógico ao ecossistema digital atual, dividiram palco com gigantes como Megadeth e Destruction, e mantiveram intacta a urgência na mensagem. O mais recente EP, “inVolution”, surge como mais uma prova dessa vitalidade, abordando temas como a destruição ambiental, a ganância e o colapso moral com a intensidade que sempre caracterizou a banda.

Nesta entrevista, mergulhamos na visão atual dos Distraught, na forma como encaram a evolução do thrash metal e no que continua a alimentar a chama de uma banda que nunca deixou de ter algo a dizer.


Ao longo de mais de três décadas, mantiveram sempre uma identidade muito própria dentro do thrash. O que é que nunca estiveram dispostos a comprometer na vossa sonoridade e mensagem?



André: Somos fiéis ao nosso estilo de fazer música, ao longo dos anos atingimos uma maneira de compor os nossos álbuns de forma mais madura. Existe no nosso último trabalho, o Ep “inVolution”, elementos mais criativos por parte da bateria que o Thiago Caurio adicionou nas músicas, mas sem nunca deixar de perder nossas origens.





Ricardo: Pressão, peso, riffs, refrões fortes e letras que façam sentido. Acho que são fatores que temos todo o cuidado para não perder e que ao longo dos anos esses acabaram sendo preservados naturalmente.


O Ep “inVolution” aborda temas como destruição ambiental, ganância e colapso moral. Sentem que hoje a música pesada tem ainda mais responsabilidade em refletir e confrontar a realidade?



Ricardo: Com certeza. Isso sempre fez parte da essência da música pesada e do rock e suas vertentes. Mas hoje, com tudo acontecendo ao mesmo tempo, essa responsabilidade fica ainda mais evidente. O metal sempre foi um espaço de confronto, de questionar, e continua sendo uma ferramenta importante para expor o que muita gente prefere ignorar.



André: Em todos nossos álbuns buscamos mostrar nossa indignação com tudo que não concordamos. No “inVolution” não foi diferente. A humanidade precisa ter consciência dos males que estamos a fazer para o nosso planeta.


Já passaram por diferentes fases da cena, desde o underground dos anos 90 até ao panorama digital atual. Como avaliam essa evolução e o impacto que teve na forma como o thrash metal é criado e consumido?

André: A fase analógica dos anos 90 era mágica, muito empolgante, mas com uma certa dificuldade para que uma banda ficasse conhecida. Atualmente é tudo mais fácil, mas também muito competitivo. Então, pode-se dizer que em ambos os momentos existem coisas boas e menos boas. Hoje grava-se uma demo ou até um álbum com mais facilidade, porém as pessoas consomem muito pouco o resultado (cd físico).

Ricardo: Eu vejo essa evolução como uma mudança de dinâmica. Antes, o acesso era limitado, mas quem chegava até a música realmente consumia de forma mais profunda. Hoje, com o digital, a distribuição é imediata, global, mas também mais descartável. Isso impacta até na forma de criar — você precisa prender a atenção mais rápido, mas sem perder identidade. O desafio atual é justamente esse: usar as ferramentas modernas sem deixar o som virar só mais um no meio de tanta coisa.




Partilhar palco com nomes como Megadeth ou Destruction marcou momentos importantes na vossa carreira. Que memórias ou aprendizagens retiram dessas experiências?

André: Foi muito gratificante para os Distraught dividir o palco com grandes bandas como as citadas. Eu particularmente sou muito fan de Destruction, uma de minhas influências do thrash metal na minha adolescência. No concerto dos Megadeth lembro-me que parte da equipa deles ficou impressionada com os nossos instrumentos e gostaram muito do nosso do que fizemos em palco.

Ricardo: Essas experiências vão muito além do momento do show. Na época dividir o palco com bandas como Megadeth e Destruction trouxe-nos uma carga enorme de aprendizagem, principalmente em termos de profissionalismo, estrutura e dinâmica de palco. Você observa desde a passagem de som até a execução ao vivo, e isso eleva o nível de exigência da própria banda. Ao mesmo tempo, são oportunidades que ampliam a visibilidade e reforçam que estamos inseridos dentro de uma cena global do metal.


Depois de tantos lançamentos, digressões e mudanças no panorama musical, o que continua a alimentar a vossa motivação para criar e levar os Distraught para a frente?

André: Gostamos do que fazemos, acho que isso é o nosso combustível. O Heavy Metal está nas nossas veias. Não vamos desistir tão cedo e continuaremos espalhando a nossa música para o maior número de lugares e pessoas possível, esse é nosso objetivo.

Ricardo: A motivação vem da própria necessidade de nos expressarmos. Continuamos a compor porque ainda sentimos que há muitas coisas para dizer, ainda existe indignação expressadas nas letras, ainda existe energia pra colocar isso na música. E enquanto isso existir, a banda segue. Além disso, o retorno do público, os shows, o contato direto com quem acompanha o nosso trabalho, tudo isso alimenta a vontade de continuar criando e evoluindo.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

🎙️Entrevista - LAST PISS BEFORE DEATH



Com uma identidade sonora crua, provocadora e sem concessões, os Last Piss Before Death têm vindo a afirmar-se como um dos nomes mais inquietos da cena underground nacional. Com uma atitude assumidamente irreverente e uma abordagem direta às temáticas que exploram, a banda constrói um universo onde o caos e a crítica convivem sem filtros.

O mais recente trabalho da banda é o LP “Resistance”, um álbum que reforça a sua postura combativa e expande a intensidade sonora que os caracteriza, sem perder a urgência nem a frontalidade. Nesta entrevista, Edgar Alves e Pedro Lourenço contam-nos o que está por trás desta nova investida — o que os move, o que mudou, e o que continua perigosamente igual no seu percurso.



“Resistance” surge como um disco marcado por vários anos de trabalho — o que representa este álbum dentro do percurso da banda?


Pedro Lourenço: Como o próprio nome do álbum indica, significa a capacidade de resistir e não desistir, perante tantas adversidades que foram surgindo. 


Edgar Alves: o “RESISTANCE” é o segundo trabalho dos Last Piss Before Death quatro anos a seguir do álbum homónimo “LPBD”  ambos edição pela Raging Planet Records do Sr. Daniel Mackosch, uma das mais fantásticas editoras em Portugal e em qual nos sentimos muito honrados por fazer parte, pois Portugal tem excelentes bandas e é magnífico o trabalho em prol da cultura nacional o trabalho efetuado desta editora . 

Resistance é um Grito de Dor mas também um Uma Sonoridade de Esperança, perante um mundo sempre adverso e no caso de Portugal sempre em crise. Os LAST PISS BEFORE DEATH quiseram fazer algo diferente do que já tinham efetuado  - juntar esperança, adicionar novos sons / ambientes para que este segundo álbum sobreviva ao longo da espuma dos dias do caos que vivemos.





O título é bastante directo e carregado de significado — a que resistem os Last Piss Before Death?


Pedro Lourenço: Ser músico em Portugal é bastante complicado. Para podermos ser músicos, temos de ter carreiras e vidas paralelas e precisamos de ter um mercado. O mercado português é praticamente inexistente e as nossas vidas paralelas consomem-nos muito tempo e recursos. Resistir e conseguir sobreviver torna-se quase um feito.


Edgar Alves : O título do álbum é bastante ambíguo, mas no entanto a capa do álbum é um dia-a-dia de qualquer sítio em guerra …. A destruição total com uma flor a surgir como esperança … “RESISTANCE“. Resistir, no contexto da Constituição da República Portuguesa (CRP), refere-se ao direito de resistência, um princípio fundamental consagrado no Artigo 21.º. Este direito legitima os cidadãos a oporem-se a ordens ou atos.  Fundamentação Legal: O Artigo 21.º afirma que "Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública".

Natureza Defensiva: Trata-se de um mecanismo de defesa, permitindo o incumprimento de ordens ilegais ou abusivas, tanto de poderes públicos como de sujeitos privados.



“Resistance” é mais emocional e pessoal do que o trabalho anterior? É mais uma reacção ao mundo exterior ou um confronto interno?


Pedro Lourenço: Definitivamente um conflito interno resultante de um mundo exterior cada vez mais desadequado, distorcido e macabro. Fazer e escrever música é a nossa reação ao confronto que acaba por surgir.

Edgar Alves: é uma obra que deu muito trabalho a efetuar, música que chegue às pessoas, ter mensagem, ter musicalidade, mas com a esperança que as pessoas consigam se rever no trabalho efetuado além da espuma dos dias vai ser o grande desafio para este trabalho.

“RESISTANCE “ Não é só o trabalho dos músicos mas o público e que tem nos acarinhado e estado sempre connosco nestes 7 anos de trabalho – após o LPBD  álbum homónimo em que falámos sobre violência doméstica no tema “Portugal “ ou “ Devil´s Road” em que fazemos o caminho do Diabo ou “Out Of Luck” em que mencionamos a cultura cancelada “RESISTANCE “ faz uma ponte: Até onde vamos? dá pelo nome de “RESET” e este é nosso 1º single de RESISTANCE 



A inclusão de elementos musicais progressivos e atmosféricos, foi uma evolução natural ou uma decisão consciente de ruptura com o passado?


Pedro Lourenço: Foi uma evolução muito natural. 


Edgar Alves: Completamente natural … Não temos ruturas com o passado, temos é duvidas com o Futuro…  por isso quisemos efetuar o álbum mais fiel possível em um take – como se fazia antigamente em fita –totalmente explosivos e em palco junto ao público 

Sem qualquer tik tok ou qualquer clik “RESISTANCE” é uma besta excetuado por músicos para o público.



Como equilibram esta nova abordagem mais atmosférica com a agressividade do thrash/death que vos define?


Pedro Lourenço: Não pensamos muito no assunto. Compomos a nossa música na sala de ensaios e vamos seguindo o instinto. Se estamos a trabalhar num tema e um dia estamos mais cansados que o habitual, é possível que não dê vontade de abrandar e fazer algo diferente… mas não há regras nem padrões no que toca à composição musical.


Existe uma linha  conceptual ao longo do álbum ou cada tema funciona como uma entidade independente?


O álbum foi trabalho de 4 anos em palco – “Resistance “ é cada gota de suor 

É cada Alma em convulsão – após o LPBD – RESISTANCE É AO VIVO QUE TEM TODA A SUA FORMA – Com os nossos Fans e para eles Tudo !!



“Echoes” ou “Reset” são temas com forte carga simbólica. De que forma se construíram estes dois temas no seio da narrativa de “Resistance”?


“Echoes”, o segundo single faz a ponte do primeiro álbum para o “ RESISTANCE “ 

Mas Rosa permite-me: é um álbum com Alma, que tivemos muita dificuldade, pois sabemos bem que a música actual quase pouco resiste a 15 segundos na primeira audição. Os próximos singles vão ser mais directos: é um álbum em que qualquer tema podia ser single mas vem ai “ Bells”  e “Cry”.   

“Echoes” é uma ponte, “Reset” foi um final para dar algo novo pois deu o nascimento ao novo álbum . É o último tema do nosso novo álbum 




O disco foi descrito como um “testemunho de persistência” — até que ponto reflecte as dificuldades da banda desde a estreia? 


Os Last Piss Before Death fazem algo diferente na música portuguesa: não usam samples, não seguem ninguém – são uma identidade  - SÃO PURE DIY PURE ROCK N FUCKING ROLL, que respeitam o seu público – respeitam cada espetáculo como se fosse o último. E brevemente vamos estar juntos !!!! Grato 


Pedro Lourenço: reflete as dificuldades que a banda encarou até ao mais ínfimo pormenor. Acho que o intuito da banda existir é mesmo esse, extravasar o dia-a-dia, ter uma forma de lutar. Porque só lutando nos sentimos bem connosco próprios. 



Como estão a adaptar as apresentações ao vivo, sendo um disco mais denso e atmosférico?


Pedro Lourenço: Depende um pouco do tempo de apresentação dos concertos. Pode ser uma viagem de altos e baixos ou uma rampa de lançamento onde começamos mais calmos e acabamos um pouco mais acelerados. Por norma fazemos uma previsão do que será o concerto e qual a melhor forma de apresentar a música ao público. O nosso espetáculo é muito aberto. Não estamos presos a rotinas ou máquinas, por isso fazemos o que queremos e até podemos mudar de planos em cima do palco.



No mundo actual onde música e músicos reais se confrontam diariamente com a produção artificial, consideras que música ainda é uma forma de resistência real ou apenas simbólica?


Pedro Lourenço: Aqui vou dar uma opinião muito pessoal; Na música, já há muito tempo que alguns artistas perderam a conexão com a realidade… A música sofreu muito com o excesso de produção digital, que mesmo não sendo IA, acaba por levar ao mesmo resultado: a formatação. Os sons são iguais, os ritmos parecidos, as notas não são muitas e a imaginação muito limitada e balizada por aquilo que está na moda. A IA não vai acrescentar nada de novo, apenas baralhar e voltar a dar. No entanto, a IA consegue resultados mais satisfatórios do que alguém que não tem imaginação. Temos de pensar fora da caixa e tentar fazer o que gostamos sem preconceitos. 

Edgar Alves: nos Last Piss Before Death o objetivo é onde forem partirem tudo, cantar, ter um óptimo espetáculo e que todas as pessoas cantem connosco.



Qual a mensagem que queres deixar a quem leu esta entrevista? 


Pedro Lourenço: Ouçam muita música e o novo álbum de LPBD. Não se deixem levar por modinhas e tenham um espírito crítico. Life is too short para andarmos a reboque dos outros.

Edgar Alves:  I Wanna thank every one of you – that makes the metal scene Iconic 

Lets have a Fucking great party.