Num panorama onde o death metal moderno procura constantemente reinventar-se sem perder peso e identidade, os Rise Of Kronos surgem como um exemplo claro de evolução consciente. Nascidos em 2021 das cinzas dos Surface, a banda alemã assumiu esta transformação não apenas como uma mudança de nome, mas como uma verdadeira redefinição artística. Mais sombrios, mais pesados e conceptualmente mais ambiciosos, encontraram em “Slaves Of Time” a afirmação plena dessa nova identidade.
Inspirado por temas como o tempo, a mortalidade e o confronto inevitável com forças maiores do que nós próprios, o novo álbum cruza agressividade sueca, precisão progressiva e intensidade hardcore com uma abordagem cinematográfica profundamente atmosférica. Entre referências à mitologia grega, reflexões existenciais e uma sonoridade brutalmente moderna, os Rise Of Kronos apresentam um disco que funciona tanto como descarga emocional como viagem conceptual.
Nesta conversa, Jhonnie, guitarrista, fala-nos sobre a transformação da banda, a construção de “Slaves Of Time” e a forma como o grupo encontrou uma identidade própria dentro do death metal contemporâneo.
O nascimento dos Rise Of Kronos surgiu como uma rutura deliberada com o passado enquanto Surface. O que sentiram que precisava realmente de mudar para justificar este “renascimento”?
Nunca se tratou apenas de mudar o nome. Sentimos que a banda tinha evoluído musical e visualmente ao ponto de a antiga identidade já não representar aquilo que defendíamos. Rise Of Kronos parecia mais sombrio, mais pesado e mais focado desde o início. Os temas, o som e toda a atmosfera tornaram-se muito mais intensos e cinematográficos. Por isso, o “renascimento” aconteceu de forma natural. Foi mais como fechar um capítulo e assumir totalmente a próxima evolução da banda.
“Slaves Of Time” explora temas como o tempo, a mortalidade e a sensação de estarmos presos a forças inevitáveis. Até que ponto este conceito reflete experiências pessoais dentro da banda?
Acho que toda a gente se consegue identificar com esse sentimento de alguma forma. O tempo controla tudo à nossa volta e, por vezes, parece impossível escapar à pressão, às expectativas ou a certas situações da vida. O álbum não é autobiográfico de forma direta, mas as experiências pessoais moldaram definitivamente as emoções por detrás das músicas.
Digressões, stress, envelhecer, perda… tudo isso muda a tua perspetiva. “Slaves Of Time” reflete essa sensação de lutar contra algo maior do que nós próprios.
Musicalmente, o álbum mistura agressividade, precisão progressiva e intensidade hardcore. Como conseguem equilibrar essas influências sem perder uma identidade clara?
Nunca forçamos influências no processo de composição. Ninguém está ali a dizer “este riff tem de soar desta ou de outra forma” ou “esta parte precisa de ser mais hardcore”. Isso acontece naturalmente porque cada elemento da banda vem de contextos musicais ligeiramente diferentes.
O mais importante é que cada música continue a soar a Rise Of Kronos. A energia, o peso e a atmosfera ligam tudo e acabam por criar a nossa identidade.
Temas como “Heresy” e “Poison Of The Gods” parecem profundamente ligados à mitologia grega. O que vos atrai nesse universo e como o traduzem para o vosso som?
Bem, “Heresy” é apenas a introdução, mas a mitologia grega sempre nos fascinou porque combina poder, tragédia, guerra, traição e destino. Essas histórias são antigas, mas as emoções por detrás delas continuam intemporais e relevantes nos dias de hoje.
Musicalmente, tentamos refletir essa dimensão e intensidade através dos riffs, das atmosferas sombrias e das estruturas dinâmicas. Queremos que as músicas pareçam enormes e cinematográficas, quase como uma banda sonora para esses mitos.
O título “Slaves Of Time” é bastante evocativo. Vocês olham para a música como uma forma de escapar a essa condição ou como uma forma de a enfrentar diretamente?
Provavelmente as duas coisas. A música pode absolutamente ser uma fuga da realidade, mas ao mesmo tempo também te obriga a confrontar emoções e pensamentos que normalmente tentarias suprimir.
Para mim, criar música é uma forma de processar as coisas. Não podes parar o tempo, mas podes transformar experiências, medos e memórias em algo significativo. Nesse sentido, a música torna-se uma forma de lutar contra essa sensação de sermos controlados pelo tempo.
Para mim, criar música é uma forma de processar as coisas. Não podes parar o tempo, mas podes transformar experiências, medos e memórias em algo significativo. Nesse sentido, a música torna-se uma forma de lutar contra essa sensação de sermos controlados pelo tempo.
Ao olhar para a tracklist completa de “Slaves Of Time”, existe uma forte sensação de fluxo narrativo. Abordaram o álbum como uma viagem coesa do início ao fim ou cada tema funciona como um capítulo independente dentro de um conceito mais amplo?
Era importante para nós que o álbum funcionasse como uma experiência completa do princípio ao fim. O fluxo, o ritmo e a atmosfera tiveram um papel enorme durante o processo de escrita.
Ao mesmo tempo, cada faixa tem a sua própria identidade e mensagem. Podes ouvir as músicas individualmente, mas juntas formam um quadro muito maior. Queríamos que o álbum parecesse uma viagem através de diferentes perspetivas dentro do mesmo tema central.



Sem comentários:
Enviar um comentário