sexta-feira, 15 de maio de 2026

REVIEW - "AVIR" - INSVLA


A perfeição existe e chama-se “AVIR”. E quando vem assinada pelos INSVLA, torna-se impossível ignorar o impacto que deixa depois da última faixa terminar.

Confesso que, conhecendo o talento de Sienna, Pedro e Mário, não esperava nada menos do que algo excelente. Mas a verdade é que “AVIR” conseguiu destruir completamente qualquer expectativa que eu tinha criado. E talvez aí esteja a maior surpresa deste disco: perceber que “excelente” é uma palavra demasiado pequena para aquilo que este álbum representa.

Há discos bons. Há discos muito bons. E depois há aqueles raros trabalhos que parecem nascer destinados a permanecer. “AVIR” pertence claramente a essa categoria. Magistral, épico, intenso e profundamente humano, o álbum transporta-nos por uma viagem emocional onde cada composição soa pensada ao detalhe, mas nunca artificial. Tudo respira autenticidade.

A voz de Sienna Sally é um dos elementos mais hipnotizantes de todo o álbum. Existe nela uma doçura quase angelical, mas também algo perigosamente sedutor. É como o canto das sereias: atrai-nos lentamente para as profundezas de um oceano feito não de água e sal, mas de emoções, medos, ansiedades e cicatrizes que tantas vezes tentamos esconder de nós próprios. Nunca sabemos ao certo se estamos perante um anjo salvador ou uma entidade sombria que nos amaldiçoa com verdades que não queremos enfrentar. Só sabemos que queremos continuar a seguir aquela voz, mergulhar cada vez mais fundo, mesmo correndo o risco de nunca mais conseguir regressar à superfície da mesma forma.

Os growls de Tiago intensificam ainda mais essa dualidade. Funcionam como a manifestação física da escuridão que se esconde por detrás da suavidade da voz de Sienna. Porque por mais doce e celestial que ela soe, existe sempre algo inquietante, maquiavélico e emocionalmente manipulador na forma como nos prende. E é precisamente essa tensão entre beleza e desconforto que torna “AVIR” tão esmagador emocionalmente.

E depois existe Mário. A forma como usa a guitarra transcende a técnica e entra num território quase visceral. Mário toca como quem segura um bisturi: com precisão cirúrgica, delicada mas profundamente devastadora. Cada nota parece abrir pequenas feridas emocionais dentro de nós, deixando marcas impossíveis de ignorar. Cicatrizes expostas sem pudor, transformadas em beleza da mesma forma que a arte japonesa do Kintsugi transforma as falhas em algo ainda mais valioso. É magistral a forma como faz a guitarra respirar, chorar e gritar — como se as cordas fossem, elas próprias, cordas vocais carregadas de emoção humana.

Depois existe Pedro Antunes. Músico, compositor e ser humano de uma profundidade rara. Costumo chamar-lhe, carinhosamente, “Peter Pan”. Mas ao contrário da personagem original, Pedro não nos leva para uma Terra do Nunca onde permanecemos eternamente crianças. Leva-nos para um lugar onde somos obrigados a crescer. E muito.

As suas composições e letras funcionam quase como espelhos emocionais. Depois de ouvir “AVIR”, não regressamos iguais. Há qualquer coisa dentro de nós que muda inevitavelmente. Tornamo-nos mais conscientes das nossas fragilidades, dos nossos demónios, inseguranças e medos. E talvez o mais impressionante seja o facto de querermos regressar ao álbum repetidamente precisamente por causa disso. Voltamos faixa após faixa porque, no fundo, procuramos esse espelho. Procuramos enfrentar aquilo que a música nos obriga finalmente a encarar.

A força deste trabalho está precisamente na forma como consegue equilibrar peso emocional, ambiência e identidade própria sem cair em fórmulas previsíveis. Há uma elegância quase cinematográfica na construção sonora de INSVLA, mas também uma crueza emocional que torna cada momento genuinamente sentido. Não é apenas música. É experiência. É catarse. É arte transformada em som.

Poucas vezes um álbum de estreia surge com esta maturidade, esta confiança e esta capacidade de deixar marca logo à primeira audição. “AVIR” não pede atenção; exige-a. E merece-a do princípio ao fim.

Sem exagero, é um dos melhores álbuns que ouvi na última década. Talvez mais do que isso.

Obrigada, INSVLA, por tudo.

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