domingo, 3 de maio de 2026

🎙️Entrevista - DISTRAUGHT (por Miguel Correia)




Com mais de três décadas de percurso, os Distraught são um nome incontornável do thrash metal brasileiro. Desde o início dos anos 90 que a banda construiu um caminho assente na consistência, na agressividade sonora e numa identidade muito própria, sempre fiel às raízes do género, mas sem nunca abdicar de evoluir.

Ao longo dos anos, atravessaram diferentes fases da cena, do underground analógico ao ecossistema digital atual, dividiram palco com gigantes como Megadeth e Destruction, e mantiveram intacta a urgência na mensagem. O mais recente EP, “inVolution”, surge como mais uma prova dessa vitalidade, abordando temas como a destruição ambiental, a ganância e o colapso moral com a intensidade que sempre caracterizou a banda.

Nesta entrevista, mergulhamos na visão atual dos Distraught, na forma como encaram a evolução do thrash metal e no que continua a alimentar a chama de uma banda que nunca deixou de ter algo a dizer.


Ao longo de mais de três décadas, mantiveram sempre uma identidade muito própria dentro do thrash. O que é que nunca estiveram dispostos a comprometer na vossa sonoridade e mensagem?



André: Somos fiéis ao nosso estilo de fazer música, ao longo dos anos atingimos uma maneira de compor os nossos álbuns de forma mais madura. Existe no nosso último trabalho, o Ep “inVolution”, elementos mais criativos por parte da bateria que o Thiago Caurio adicionou nas músicas, mas sem nunca deixar de perder nossas origens.





Ricardo: Pressão, peso, riffs, refrões fortes e letras que façam sentido. Acho que são fatores que temos todo o cuidado para não perder e que ao longo dos anos esses acabaram sendo preservados naturalmente.


O Ep “inVolution” aborda temas como destruição ambiental, ganância e colapso moral. Sentem que hoje a música pesada tem ainda mais responsabilidade em refletir e confrontar a realidade?



Ricardo: Com certeza. Isso sempre fez parte da essência da música pesada e do rock e suas vertentes. Mas hoje, com tudo acontecendo ao mesmo tempo, essa responsabilidade fica ainda mais evidente. O metal sempre foi um espaço de confronto, de questionar, e continua sendo uma ferramenta importante para expor o que muita gente prefere ignorar.



André: Em todos nossos álbuns buscamos mostrar nossa indignação com tudo que não concordamos. No “inVolution” não foi diferente. A humanidade precisa ter consciência dos males que estamos a fazer para o nosso planeta.


Já passaram por diferentes fases da cena, desde o underground dos anos 90 até ao panorama digital atual. Como avaliam essa evolução e o impacto que teve na forma como o thrash metal é criado e consumido?

André: A fase analógica dos anos 90 era mágica, muito empolgante, mas com uma certa dificuldade para que uma banda ficasse conhecida. Atualmente é tudo mais fácil, mas também muito competitivo. Então, pode-se dizer que em ambos os momentos existem coisas boas e menos boas. Hoje grava-se uma demo ou até um álbum com mais facilidade, porém as pessoas consomem muito pouco o resultado (cd físico).

Ricardo: Eu vejo essa evolução como uma mudança de dinâmica. Antes, o acesso era limitado, mas quem chegava até a música realmente consumia de forma mais profunda. Hoje, com o digital, a distribuição é imediata, global, mas também mais descartável. Isso impacta até na forma de criar — você precisa prender a atenção mais rápido, mas sem perder identidade. O desafio atual é justamente esse: usar as ferramentas modernas sem deixar o som virar só mais um no meio de tanta coisa.




Partilhar palco com nomes como Megadeth ou Destruction marcou momentos importantes na vossa carreira. Que memórias ou aprendizagens retiram dessas experiências?

André: Foi muito gratificante para os Distraught dividir o palco com grandes bandas como as citadas. Eu particularmente sou muito fan de Destruction, uma de minhas influências do thrash metal na minha adolescência. No concerto dos Megadeth lembro-me que parte da equipa deles ficou impressionada com os nossos instrumentos e gostaram muito do nosso do que fizemos em palco.

Ricardo: Essas experiências vão muito além do momento do show. Na época dividir o palco com bandas como Megadeth e Destruction trouxe-nos uma carga enorme de aprendizagem, principalmente em termos de profissionalismo, estrutura e dinâmica de palco. Você observa desde a passagem de som até a execução ao vivo, e isso eleva o nível de exigência da própria banda. Ao mesmo tempo, são oportunidades que ampliam a visibilidade e reforçam que estamos inseridos dentro de uma cena global do metal.


Depois de tantos lançamentos, digressões e mudanças no panorama musical, o que continua a alimentar a vossa motivação para criar e levar os Distraught para a frente?

André: Gostamos do que fazemos, acho que isso é o nosso combustível. O Heavy Metal está nas nossas veias. Não vamos desistir tão cedo e continuaremos espalhando a nossa música para o maior número de lugares e pessoas possível, esse é nosso objetivo.

Ricardo: A motivação vem da própria necessidade de nos expressarmos. Continuamos a compor porque ainda sentimos que há muitas coisas para dizer, ainda existe indignação expressadas nas letras, ainda existe energia pra colocar isso na música. E enquanto isso existir, a banda segue. Além disso, o retorno do público, os shows, o contato direto com quem acompanha o nosso trabalho, tudo isso alimenta a vontade de continuar criando e evoluindo.


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