terça-feira, 16 de dezembro de 2025

🎙️Entrevista - ÉTER NA MENTE (por Miguel Correia)



Os brasileiros Éter na Mente são um dos nomes mais singulares a surgir da cena rock de Fortaleza na última década, nascidos em 2014 no coração da periferia e marcados por uma vivência que se reflete de forma intensa tanto nas letras como na sonoridade. O grupo construiu uma identidade própria ao misturar blues rock, punk, grunge, hardcore, ska, metal contemporâneo e poesia política, sempre com uma postura crítica perante a realidade social brasileira. O resultado é um rock experimental que desafia rótulos, movido pela liberdade criativa e pela urgência de expressão.

Com uma presença constante na cena cultural cearense, passando por festivais como o Sarau Farol Rock e o Projeto Guetos Urbanos, e liderando iniciativas como o Focaos e a Farofa no Farol do Mucuripe, a banda tem sido um motor ativo na construção de espaços independentes para artistas locais. Entre mudanças de formação, laboratórios musicais e uma crescente maturidade em palco, os Éter na Mente continuam a expandir o seu som e o seu alcance.

Nesta entrevista, conversámos com Gleison Cruz, vocalista e um dos pilares criativos da banda, que partilha a visão, as dificuldades, a força e a paixão que moldam este projeto que resiste, provoca e inspira.



Éter na Mente nasceram na periferia de Fortaleza e trazem essa vivência de forma muito clara nas letras e na sonoridade. De que maneira a realidade social do Ceará molda a identidade artística da banda?


As mazelas sociais no qual vivenciamos cotidianamente, serviu e serve para nos tornar uma banda que carrega um forte senso crítico diante de tudo isso, onde a resistência contra um sistema voraz e cruel se faz necessário. Vestir a armadura da consciência para nos blindar das falácias e da corrupção e mostrar isso em nosso comportamento no palco e nas letras, pois entendemos que a música é uma forte arma contra os nossos opressores.



O vosso estilo cruza blues rock, punk, grunge, hardcore, ska e new metal, criando um rock experimental difícil de encaixar em rótulos. Como gerar essa liberdade criativa no processo de composição sem perder coesão enquanto banda?


Todos os integrantes trazem estilos diferentes nas suas bagagens e na construção das músicas eles têm a liberdade para sugerir e mostrar as ideias de cada um nos arranjos, modificar e experimentar sonoridades e efeitos nas composições e isso torna a nossa construção musical mais interessante, todos tem a liberdade de criar, é uma construção coletiva e ao mesmo tempo individual. Portanto, não ter rótulos e códigos é inevitável e não nos importamos com isso, porque não há como seguir um padrão musical com tantas ideias novas surgindo a cada música, o mais importante é o resultado final.




As letras poéticas e políticas são uma marca central do seu trabalho. Como decidir quais temas sociais ou existentes merecem transformar-se em música e que abordagem procurar ao escrever?


Não há uma regra exata na construção dessas músicas, tudo surge do nada ou de algo que está muito inflamado na sociedade e, naturalmente, começa a incomodar todo mundo, então pode surgir primeiro de um rif ou de um cantarolar que se transforma em letra, de um pequeno rabisco numa folha, duma batida na perna ou numa caixa, de um assobio, tudo pode criar vida a qualquer momento, é bem circunstancial.



Em 2017 lançaram Meu Século, fruto de um laboratório musical. O que aprenderam com essa experiência e como ela influenciou a evolução sonora de Éter na Mente nos anos seguintes?


Meu Século tornou-se numa das músicas que mais nos representa por muitos motivos, foi uma das primeiras a ser feita, tem uma letra muito crítica, a primeira autoral a ser ensaiada e gravada, onde tivemos todo um cuidado na gravação para que saísse exatamente como queríamos. Ela hoje é uma das mais conhecidas, e alcançou uma das grandes marcas de ouvintes e seguidores nos streamings, nas redes sociais, em coletâneas e nos shows algumas pessoas já cantam com a gente. É uma das músicas que não podemos deixar de fora da setlist nos shows.



Vocês participam ativamente da cena cultural cearense, organizando eventos como o “Focaos” e a “Farofa” no Farol do Mucuripe. O que vos motiva a criar espaços culturais próprios e que impacto sente que isso tem na comunidade artística local?


Bem, nós já sentimos na pele várias vezes, principalmente no início de nossa carreira, o que é ficar de fora de grandes eventos. Não é justo e não é nada bom principalmente para as bandas underground, independentes, que já são tão desprezadas. Foi a pensar em juntar o útil ao agradável que resolvemos fazer nós mesmos os nossos festivais, aproveitando o nosso território que tem picos bem interessantes e pouco explorados, convidando potenciais parceiros a fortalecer o movimento e a cena local, dando assim oportunidade, de uma forma digna aos artistas da nossa cidade, movimentando a economia local e dando vida ao lugar. E pensamos inclusive, aos poucos expandir esses eventos para mais bairros e até para outras cidades, dependendo dos patrocínios que conseguirmos ou até mesmo editais e licitações.



Ao longo dos anos a formação da banda tem sido fluida, com entradas e saídas de membros. Como essa rotatividade contribuiu para a expansão da sua sonoridade, e o que cada fase trouxe de diferente ao projeto?


Essa parte é a mais complicada, porque sempre que sai um membro e entra outro, atrasa todo um processo de ensaio, gravações e desorganiza até a agenda de shows no qual já chegamos a ter que cancelar porque não conseguimos substituir um determinado integrante há tempo antes do dia do evento. A parte boa é que sempre há uma diferença de um musicista para outro, um tem uma forma de pensar e tocar e outro de outra forma, isso traz-nos experiências e dá-nos a possibilidade de experimentar mais opções de ideias ao fazer ou tocar uma música.



Vocês já passaram por festivais como o Sarau Farol Rock e o Projeto Guetos Urbanos, dividindo palco com bandas de peso. Que mudanças sentiram no vosso desempenho ao vivo e na relação com o público desde essas experiências?


Em cada apresentação que fazemos, naturalmente, a nossa experiência, maturidade e dá-nos a oportunidade de entender o que o nosso público espera e deseja de nós. Tocar com outros nomes de peso traz-nos uma carga de responsabilidade muito grande e ao mesmo tempo nos abre outros espaços no qual ainda não tínhamos pisado antes e isso é o preço de estar em evidência na cena e é claro, é impagável. 






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