Esin Yardimli Alves Pereira, conhecida pelos seus álbuns celtas e nórdicos, pelas composições orquestrais para jogadores de RPG e pelas interpretações de melodias medievais e renascentistas em instrumentos históricos com o seu grupo The Wandering Bard estreia-se agora no mundo do heavy metal com um EP sinfónico instrumental de 12 minutos KIANIS – Homage to Carmilla
Inspirado no clássico gótico Carmilla, de Joseph Sheridan Le Fanu, o EP coloca o violino no centro do heavy metal. Conta com XI de GAEREA na bateria, e Ricardo Alves Pereira nas guitarras e baixo. O primeiro single, Part II: …Twelve years ago, I saw your face in a dream, saíu a 3 de outubro. O EP foi lançado a 31 de outubro, editado pela CordaSonora.
Quem é Esin Yardimli Alves Pereira?
Sou um ratinho de biblioteca, uma metaleira e uma humana curiosa. Produzo, faço engenharia de som, realizo arranjos, componho e interpreto música; escrevo ficção fantástica e artigos de história; investigo sobretudo manuscritos medievais; organizo festivais; toco instrumentos que normalmente se parecem, pelo menos um pouco, com o violino, e canto; dou palestras e workshops sobre cultura, poesia e música medieval; faço design para cartazes e álbuns; e ainda faço um bocadinho de edição de vídeo. Mais sobre tudo isto: CordaSonora.com, que é “o nosso castelo”, meu e de Ricardo Alves Pereira. Também gosto muito de árvores. E, geralmente, elas gostam de mim de volta.
Hoje escrevo enquanto produtora e violinista do meu EP de heavy metal KIANIS - Homage to Carmilla.
Como descreves o teu percurso até aqui? Houve algum momento decisivo que te encaminhou para para a escolha deste caminho artístico?
Lançar uma obra de heavy metal era, há décadas, um sonho meu, e era já algo “decidido”. Demorei a ganhar coragem para libertar toda a minha honestidade, escrever a minha composição mais épica até agora e enfrentar a maior aventura de produção de sempre. E agora o sonho tornou-se realidade. Fora isso, nunca houve um “momento decisivo”, claro :)). Certamente que fazemos a nossa própria sorte, e trabalhamos muito por ela, mas nunca planeei criar uma editora como a CordaSonora, fundar um ensemble como The Wandering Bard, ou ser co-directora de festivais como o CMML (Leiria), onde chegámos a convidar Fernando Ribeiro, dos Moonspell, a vir atuar connosco cantigas de escárnio e maldizer (oh my goth, melhor experiência de sempre). Tudo isto deixa-me muito, muito feliz e orgulhosa, e agora tudo parece ter sido “destino”. O que faço é continuar: já renasci das cinzas várias vezes, trabalho arduamente e recebo todas as vitórias de braços abertos.
A tua expressão musical encaixa-se perfeitamente no que habitualmente é definido como “fora da caixa”: é diferente, autêntico e não segue padrões. Num mundo actual que nos empurra constantemente para a uniformização ser diferente e seguir os seus próprios padrões é ser rebelde ou é uma necessidade de estabilidade mental?
Pergunta lindíssima, e certeira quanto à estabilidade mental. Ao longo dos anos comecei a gostar de aprender música: como o tempo e a emoção constroem esta arquitetura em harmonia, e como podemos criar sentimentos nas pessoas. É magia, não é? Mas eu não gosto de tocar violino :))). Nunca o quis tocar (toco desde os meus cinco anos). Muitas vezes tentei desistir em criança, mas os meus irmãos no final não me deixaram. Nessa altura já não tínhamos pais connosco (estão vivos; é uma longa história). Eles achavam que seria melhor eu manter-me no instrumento para assegurar uma “profissão segura” (o quê? lol). Cresci a ficar cada vez melhor nesta coisa de que não gosto (e fui sempre aluna de bolsas de estudo, portanto a minha ligação ao instrumento era muito financeira). E eu sei que sou boa no violino. Tipo, mesmo boa. Por isso, para mim, o violino é uma ferramenta excelente com a qual consigo realmente fazer o que quero. Com o passar das décadas, chegou a um ponto em que, se não gosto da música que estou a tocar, torna-se então numa tortura. Portanto, sim: toco muitos estilos e projetos, mas apenas aqueles que me interessam genuinamente; não há outra opção!
Depois do jazz, da música medieval e contemporânea o EP KIANIS – Homage to Carmilla é uma incursão pelo heavy metal. Porquê esta opção? E como a conjugas em paralelo com a música medieval, à qual te continuas a dedicar?
História estranha, mas onde tudo encaixa: no meu primeiroromance, que escrevi aos 11-12 anos (publicado quando tinha 13 (foi um daqueles milagres da internet) um editor leu o primeiro capítulo num site de literatura e pediu-me para o terminar), escrevi uma passagem em que três amigos e uma personagem de livro perdida no “mundo real” iam a uma livraria para encontrar um exemplar de A História Interminável, para poderem entrar lá dentro, mas isso é outra história(!), e a passagem era assim:
“À entrada (...), passámos por uns metaleiros a fumar cigarros, ali encostados, todos a parecer pontos de interrogação com as costas tortas. Nunca os compreendi totalmente, mas sempre simpatizei com eles.” :)))))))))))) (Tive vergonha desta passagem durante anos, mas agora ADORO-A!)
Portanto, como vês, a minha relação com o metal estava destinada e é de longa data. Menos de um ano depois de escrever este parágrafo, eu já chorava ao som de One da versão dos Apocalyptica, decorava todas as letras dos Metallica, ficava encantada com Therion e gritava “MEEEEPHISTOOOOOO!!!” no meu quarto enquanto ouvia Moonspell bem alto.
Por isso, sim, a minha música metal demorou o seu tempo a sair; a vida puxou-me e puxa-me para muitos lados, mas ela esteve sempre a amadurecer cá dentro!
E medieval e metal… eu vivo entre os dois, alegremente lado a lado. A música medieval não é toda celestial ou “tralalá”; é muito emotiva, sombria e rica. Soa familiar? O metal e a música medieval estão muito mais ligados do que aparentam: ambos se alimentam e influenciam imenso da literatura, protegem o imaginário e a tradição oral, dão voz a todo o tipo de emoções e opiniões, incluindo as que a sociedade ou os governantes preferem não ouvir. E além disso… Carmilla é uma obra de literatura gótica do século XIX, enquanto que eu estou até aos joelhos na era gótica medieval… quer dizer, tinha mesmo que ser!
És multi-instrumentista e escolheste o violino para te expressares em KIANIS – Homage to Carmilla. O que motivou essa escolha?
KIANIS – Homage to Carmilla é uma obra profundamente atmosférica e conceptual. Como surgiu este projecto, quais foram as influências?
Era ÓBVIO que eu tinha de fazer uma obra de heavy metal. Toquei violino em bandas de rock e metal underground em vários países; nos primeiros tempos, nem sequer haviam câmaras digitais para facilmente registar sequer memórias, e nenhuma das bandas eu tive “durou”. E eu estava profundamente cansada de dizer: “Sabes, eu também tocava metal com o violino.” Com este EP, já não preciso de o dizer.
Como já disse, sou um ratinho de biblioteca. Gosto tanto de literatura gótica que aprendi inglês sozinha com poemas de Edgar Allan Poe, só para poder lê-los na língua original. E acho uma AUTÊNTICA PIADA que Carmilla, tendo sido publicada antes, não seja mais popular do que Drácula na literatura e na cultura vampírica, mas não vou entrar na idiotice da política sexual do passado recente. Portanto, tanto o conceito da minha estreia metal como a escolha da personagem eram óbvios para mim. A literatura romântica muitas vezes “viaja até ao início”; apesar de o livro não seguir totalmente essa estrutura, a forma e a estrutura harmónica da minha composição foram baseadas nessa narrativa.
Influências: geralmente gosto mais dos álbuns conceptuais das bandas que aprecio. É aquela sensação de compromisso, quase como ler, e a recompensa que nasce desse compromisso. De Operation: Mindcrime dos Queensrÿche a Scenes from a Memory dos Dream Theater, passando por 1755 dos Moonspell, e a lista continua.
Sonoricamente, Puritanical Euphoric Misanthropia dos Dimmu Borgir e Modern Primitive dos Septicflesh levam-me a outros mundos. Harmonicamente, Nine Inch Nails e Sean Callery estão muito perto do meu coração.
O termo “homage” significa um profundo respeito e, frequentemente, louvor demonstrado por alguém ou por alguma entidade superior. O que significa para ti Carmilla e o vampirismo para que lhes dediques um EP?
Não me interpretem mal: adoro o livro, mas não adoro odesenvolvimento posterior nem o final. Não vou dar spoilers. Se tivesse sido escrito por uma mulher da época, acho que terminaria de outra forma. Por isso, a música não é sobre o livro Carmilla, mas sobre a mulher Carmilla. O enquadramento conceptual do EP baseia-se na ideia de que a beleza e o poder são, muitas vezes, assustadores. Carmilla não está sozinha: na literatura, nos contos populares e na mitologia, muitas figuras femininas independentes e assertivas acabam por ser retratadas como “monstros” ou “ameaças”. Isto bate certo comigo. Raramente existem fora deste molde, e, ainda assim, a chama de amor por elas nunca se apaga. Não é fascinante? Caso contrário, teriam sido excluídas da tradição oral e das páginas da história. Aliás, o meu trabalho em torno da Idade Média, das divindades femininas poderosas e da sua sobrevivência na tradição oral… bem, esse tema renderia uma resposta com o dobro do tamanho desta entrevista. Quem tiver curiosidade pode ler alguns dos meus artigos em cordasonora.com. Resumindo, eu queria que Carmilla tivesse música também. E, de facto, os vampiros apresentam esta dualidade por natureza, são representantes da vida eterna e da morte ao mesmo tempo, sendo muitas vezes as criaturas mais sábias e sensuais que alguém pode imaginar, e ainda assim condenadas a serem monstros.
Sim, acredito que KIANIS - Homage to Carmilla é o início, não o resultado. Não sei com que velocidade conseguirei entregar mais, mas vai acontecer. Este é O trabalho mais autêntico da minha vida até agora, e quis que cada participante viesse de um lugar de carinho e vontade, não de obrigação, por isso, a velocidade não é uma prioridade, nem sequer para mim.
Falando de participantes: a bateria foi interpretada pelo XI, dos GAEREA, banda que adoro e sigo com enorme admiração. Ter a bateria gravada por um músico do calibre dele é uma grande honra e um enorme motivo de orgulho para o projeto. Nas guitarras e no baixo, está o meu único e inigualável Ricardo Alves Pereira; em muitos momentos, a nossa visão criativa consolidava-se ao perguntarmos se o Eric Draven do Brandon Lee tocaria aquele riff “no topo do edifício” :))). Sou muito grata pela sua fantástica contribuição.
Recomendo Metehan Köktürk como engenheiro de som a qualquer pessoa que tenha “um som” em mente. KIANIS - Homage to Carmilla é exatamente o que sonhei ao milímetro, e isso deve-se à dedicação que ele tem na comunicação, à sua atenção ao detalhe levado a uma doçura quase louca e à sua profunda devoção à música.
Gostava de reunir esta equipa poderosa novamente. Talvez até formar uma equipa para espectáculos ao vivo no futuro. Mas até lançar o próximo capítulo, o meu maior desejo é ser reconhecida na cena metal. Quero ser desejada por músicos que imaginem o meu violino e as minhas harmonias nas suas músicas. Estou a arder por fazer mais. Músicos, aqui estou, de braços abertos, e fãs, façam a vossa magia e recomendem-me às vossas bandas favoritas!
Como foi a recepção a este EP no seio da cena mais metaleira e fora dela?
Recebi feedback incrível de pessoas que conhecia e que não conhecia, que leram Carmilla e sentiram as cores preto e vermelho escuro, sentindo a “vampira” desde o início. E fiquei a saber que outras pessoas foram ler Carmilla por causa da minha música, e por isso, missão duplamente cumprida! Muitas também disseram: “Não sabia que conseguias tocar violino ASSIM” e eu fiquei tipo, lol. Porque, sim, eu não tiro prazer de mostrar uma “show off de ginástica” quando a música pode estar perfeita sem isso. As minhas capacidades ficam muitas vezes abaixo do radar. Mas bem, este EP pedia isso ;)
Este EP é o primeiro, e é todo um processo de aprendizagem. Aventuras e peripécias de produção à parte, eu queria ainda mais atenção internacional. Tenho um vídeo performativo incrível a caminho (data a anunciar), que espero que faça a sua magia!
Mas, por outro lado, KIANIS - Homage to Carmilla não segue a moda musical de hoje. Este trabalho é sobre autenticidade, e queria mostrar-me a mim própria, não a minha relevância em 2025. Ser autêntica é muitas vezes também arriscar. Dá para ouvir isso mesmo na introdução, que dura uns 2 minutos do caraças. Com a média de tempo de atenção de hoje equivalente ao de um esquilo a ver TikToks e tudo o resto (todos sofremos com isto e disto), quem coloca 2 minutos de introdução ultra-lenta no seu debut?? Mas eu não tenho nada a perder (o melhor lugar para começar) e quis que o público se comprometesse com a música, como faz com um livro do século XIX, onde o tempo desacelera. Quem se compromete e permanece até ao fim, saboreia o abrandamento do tempo… e ainda leva uma mordida no pescoço ;).
Que mensagem gostarias de deixar aos nossos leitores?
O meu lema na vida é: “O que faria Aragorn?” Experimenta, que faz milagres.
Obrigada por me entrevistarem!
(Como diz Pascal: ‘Escrevi mais do que devia porque não tive tempo de escrever menos.’)
Cheers,
Esin





Sem comentários:
Enviar um comentário