terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

🎙️Entrevista - COLDWINTER (por Miguel Correia)

 


“Afundar nas Memórias, Transformar a Dor em Som”


Com “Where Memories Drowning”, os Coldwinter entregam um dos trabalhos mais densos e emocionalmente devastadores do seu percurso. Inspirado numa perda real e profundamente pessoal, o álbum assume-se como uma travessia pelas diferentes fases do luto, do choque inicial à rendição silenciosa, sempre envolto numa atmosfera de Atmospheric Melodic Doom Metal marcada por peso existencial, melancolia e introspecção.

Nesta conversa, Alessandro, Elvis Limac e Gustavo Grando revelam o processo criativo por trás do disco, a dimensão catártica da composição, o simbolismo da capa e a intensidade emocional que marcou as gravações. Um testemunho honesto sobre como a dor pode ser transformada em arte, e como as memórias continuam a ecoar mesmo quando tudo parece submergir.


“Where Memories Drowning” é um álbum profundamente ligado à perda e ao luto, inspirado numa história real e muito pessoal. Em que momento sentiste que esta dor precisava de ser transformada em música e conceito?

Alessandro: O álbum “Where Memories Drowning” foi um processo catártico e necessário. A dor e o luto que inspiraram este trabalho surgiram de uma perda pessoal muito significativa para mim, que me levou a questionar o sentido da vida e a importância das memórias. Foi um momento de introspeção profunda, em que a música se tornou a única forma de expressar aquilo que não conseguia dizer por palavras. A transformação da dor em música aconteceu quando percebi que as memórias, apesar de dolorosas, eram também uma forma de manter viva a ligação com quem partiu. O álbum tornou-se um tributo às memórias que não podem ser apagadas, mesmo perante a perda, elas permanecem para sempre na mente.

O momento em que senti que precisava de transformar a dor em música foi praticamente imediato. A perda foi um golpe muito duro, e a música foi a única coisa que encontrei para processar e expressar o que estava a sentir. Comecei, lentamente, a escrever letras e melodias que refletiam essa dor e confusão. Com o tempo, percebi que estava a criar algo mais do que um desabafo, estava a honrar a memória de quem se foi.

O conceito do álbum desenvolveu-se a partir daí. Quis criar uma jornada emocional que conduzisse o ouvinte pelas várias fases do luto e da saudade. A música e o conceito tornaram-se uma forma de transformar a dor em algo belo e significativo.




A capa do álbum funciona quase como um portal narrativo, carregado de símbolos como a árvore nua, a névoa e as figuras espectrais. Como foi o processo de traduzir sentimentos tão íntimos para uma imagem visual tão forte?


Alessandro: A capa foi um processo extremamente pessoal e simbólico. A árvore nua, representa a perda e a desolação, enquanto a névoa simboliza a confusão e a incerteza que acompanham o luto. As figuras espectrais são representações das memórias que permanecem, mesmo depois da partida de alguém tão importante.


Quis criar uma imagem que captasse a sensação de estar perdido num mundo enevoado, onde as memórias estão presentes, mas parecem inalcançáveis. A capa reflete o estado emocional do álbum, é um convite a entrar nesse universo de memórias submersas.


Trabalhei com um artista visual que compreendeu perfeitamente a essência do disco. Discutimos os temas e emoções que queria explorar, e a partir daí surgiram conceitos e esboços. A árvore, a névoa e as figuras espectrais emergiram quase naturalmente, como se nascessem da própria música.

Reinaldo Hilario criou a arte da capa e Caio Bakargy acrescentou e desenvolveu vários detalhes. O resultado final é uma imagem que traduz fielmente a essência do álbum.


O disco percorre diferentes estágios da dor, do choque inicial à rendição final. Esta narrativa foi pensada desde o início ou revelou-se naturalmente à medida que as músicas iam sendo compostas?

Elvis Limac: A ideia de explorar perda e memória esteve sempre presente, mas a narrativa emocional revelou-se de forma natural durante a composição. As primeiras músicas são mais densas e tensas. Com o tempo, os arranjos tornaram-se mais lentos e atmosféricos, criando uma sensação de afundamento gradual. Na organização final do álbum percebemos claramente essa trajetória, do impacto inicial à rendição silenciosa.

Alessandro: Foi um processo orgânico. Comecei por escrever letras que refletiam o meu estado emocional, sem um plano definido para o álbum. Aos poucos, as músicas começaram a agrupar-se de forma natural.


Convidei o Gustavo Grando, vocalista da banda Fohatt, para trabalhar comigo nas linhas vocais. Eu escrevia as letras e as melodias e enviava-lhe, ele gravava no seu estúdio e devolvia-me as faixas. Depois convidei também o Marcelo Alves, dos Grind Studio, para assumir a produção. Trabalhámos intensamente no disco, e o resultado foi um trabalho refinado, feito de corpo e alma, quase como uma verdadeira jornada emocional.



Musicalmente, o álbum aprofunda o Atmospheric Melodic Doom Metal com ritmos lentos, melodias frágeis e uma sensação constante de vazio. Como encontraram o equilíbrio entre emoção crua e construção musical consciente?

Elvis Limac: A emoção vem primeiro. Os riffs nascem de estados íntimos e melancólicos. Depois trabalhamos cuidadosamente as camadas, os tempos e as texturas para amplificar o sentimento sem perder autenticidade. O objetivo é que o ouvinte não apenas escute a dor, mas a sinta de forma profunda e imersiva.

Alessandro: Foi um desafio, mas também essencial. Queria que o álbum fosse emocionalmente autêntico, mas também coeso e impactante. As melodias frágeis e os ritmos lentos foram escolhas intencionais para criar uma atmosfera introspetiva. Ao mesmo tempo, experimentámos diferentes texturas e contrastes para que o disco tivesse momentos de beleza e transcendência dentro da própria desolação.


As participações de Fábio de Paula, Jéssica Gartz e Agnes Rodrigues acrescentam novas camadas emocionais ao álbum. O que procuravam transmitir com estas vozes convidadas?

Elvis Limac: As participações não foram meras colaborações pontuais, mas extensões narrativas da história do álbum. Cada voz representa uma dimensão emocional distinta. As vozes mais graves traduzem resignação e peso, a voz feminina surge quase como um eco etéreo, simbolizando a memória persistente


Funcionam quase como personagens dentro do disco, manifestações de estados internos e da própria ausência. Musicalmente, aprofundam o contraste entre luz e sombra e tornam a experiência mais cinematográfica.


Cada convidado trouxe não só técnica, mas entrega verdadeira. Mais do que participações, foram colaboradores comprometidos com a essência do trabalho.


Faixas como “I Buried Your Heart” e “Void Of The Silence” são particularmente intensas. Foi difícil revisitar essas emoções durante a gravação?

Gustavo Grando: Sim, foi emocionalmente intenso. Precisei de revisitar sentimentos profundos durante a gravação. Houve um lado terapêutico nesse mergulho. A dor transformou-se em expressão artística. Nos Coldwinter, a atmosfera já carrega esse peso existencial, por isso não era possível apenas cantar, era necessário sentir.

Alessandro: Foram momentos muito difíceis. São músicas muito pessoais. Com o apoio de Marcelo Alves conseguimos captar exatamente o que pretendia transmitir. Em “I Buried Your Heart” foram gravados dois takes da Agnes Rodrigues, e o resultado foi magnífico. Em “Void Of The Silence”, o Marcelo sugeriu que a faixa fosse interpretada apenas com a voz da Agnes. A intensidade dessas músicas vem da autenticidade das emoções captadas em estúdio. Foi doloroso, mas libertador.


Depois de uma obra tão densa e emocional como “Where Memories Drowning”, como encaram o futuro dos Coldwinter?

Elvis Limac: Não vemos este álbum como um encerramento, mas como uma travessia. Levou-nos ao limite emocional e sonoro. A composição começou por volta de 2021 e o processo foi sendo adiado por vários acontecimentos. Só em 2025 conseguimos concluí-lo.


Ele fecha um ciclo no sentido de que esgotámos essa temática. Drenámos completamente aquele estado de espírito. Mas também abre uma nova fase. A banda amadureceu com a entrada do Gustavo Grando e na forma como equilibramos peso e melodia.

Queremos expandir ainda mais a nossa visão de Atmospheric Melodic Doom Metal, explorar novos contrastes e possibilidades sonoras. Se este álbum foi sobre afundar nas memórias, o próximo poderá ser sobre o que resta depois do naufrágio. Não uma superação luminosa, mas uma consciência mais fria e contemplativa.


O futuro dos Coldwinter não será uma rutura, mas uma evolução sólida e coerente com o caminho que definimos neste segundo álbum.





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