53 490 000 Anos Luz é um título tão inesperado como foi este disco. Victor Ferreira já nos demonstrou que a sua faceta musical é demasiado ampla e diversificada para que o possamos fechar numa caixa e etiquetar. E eu gosto muito disso. Mas do que não estávamos à espera era deste disco, desta atmosfera e deste lado tão prog psicadélico (mas não só). Confesso que já ouvi este trabalho imensas vezes, que já comecei a escrever a review outras tantas, mas que me perco sempre na audição, ficando a escrita secundarizada. Mas não podia deixar de falar com o Vitor, nem que fosse neste formato escrito, para ele nos contar um pouco mais sobre este 53 490 000 Anos Luz. Se gostas de entrevistas sem rodeios, honestas e transparentes, esta é para ti.
Antes de falarmos do álbum, como nasceu o projeto Buraco Negro? Que ideia esteve na sua origem?
A génese deste projeto surge das minhas influências enquanto ouvinte e da necessidade de fazer uma pausa do heavy metal. Há algum tempo que ponderava criar algo próximo de uma banda sonora, combinar música ambiente com sintetizadores. No entanto, o processo evoluiu de forma orgânica: à medida que
começava a explorar diferentes paisagens sonoras e texturas, surgiam novas ideias e direções criativas. A partir daí, fui experimentando e sobrepondo camadas até alcançar esta amalgama sonora final.
O título 53 490 000 Anos Luz desperta imediatamente curiosidade. Qual é o significado deste número e por que decidiste utilizá-lo como nome do álbum?
53 490 000 Anos Luz é a distância aproximada de certas galáxias distantes ou de estruturas como a famosa galáxia Messier 87 (onde foi obtida a primeira imagem de um buraco negro supermassivo), como vês aqui, nada foi feito ao acaso, tudo tem uma ligação, tudo faz sentido, o próprio nome do projeto vem daí também.
O universo, o espaço, a astronomia, a dicotomia entre passado e presente, luz e trevasparecem estar muito presentes, até no próprio design da capa. São apenas metáforas ou existe uma verdadeira paixão por estes temas?
Sim, existe um gosto genuíno por temas como o universo, a astronomia e a dicotomia entre luz e trevas, mas aqui esses temas foram usados como metáforas para a viagem da vida que representa cada um de nós com os seus altos e baixos, vitórias e perdas.
A capa simboliza isso mesmo um contratorpedeiro a avançar pelo universo, mostrando que, mesmo perante todas as adversidades e dificuldades, continuamos a seguir em frente e a crescer.
Este trabalho é completamente diferente de tudo o que gravaste até hoje. Tem uma sonoridade psicadélica, apela aos sons quentes do jazz com o belíssimo saxofone, tem uma ambiência de fundo constante criada com os teclados, há momentos de black metal sinfónico e a colocação da voz nos momentos certos transporta-nos para algo mais obscuro (e muito mais, mas quero deixar alguma coisa para os ouvintes do álbum descobrirem). Como é que o Victor Ferreira de Chavascal faz um trabalho destes?
Quantos Victor Ferreiras musicais existem ainda por descobrir?
Compreendo a tua questão, não sei se tenho uma resposta precisa para ela, enquanto algumas pessoas parecem ficar bloqueadas em determinados géneros da música, a música para mim é pura liberdade e diversão, não existem barreiras nem limites, apesar de andar sempre pelo lado mais sombrio, cruel e sinistro... deve ser a minha mente, que tem o lado da luz com a lâmpada fundida. Quando estou a criar algo, não estou a pensar que tenho de fazer de determinada forma, ou que deve soar a X ou Y para agradar a quem for ouvir, estou de tal forma embrenhado no que estou a fazer que só consigo agradar a uma pessoa, que é a mim próprio, tudo o resto fica para segundo plano. Obviamente que gostaria que muita gente se identificasse com a minha música, mas compreendo que nem toda a gente possa ser bafejado pelo dom da genialidade e consiga compreender a qualidade da minha composição.
Seguramente que ainda existem mais 2 ou 3 Victor Ferreiras musicais por descobrir, não sei se algum dia serão, mas as ideias existem.
Como decorreu o processo de composição? As músicas nasceram de jams em estúdio, de ideias individuais, houve a participação de mais alguém?
O processo de composição nasceu inteiramente da experimentação. Foi uma verdadeira viagem a explorar um universo novo, pois nunca tinha feito nada do género. Partia sempre de uma ideia base inicial, mas as coisas surgiram de forma muito natural e nunca exatamente como as tinha idealizado. Foi, no fundo, uma espécie de jam session, de exploração e improviso! Um dos momentos mais marcantes foi a inclusão do saxofone, que surgiu por mero acaso já numa fase avançada do projeto. O José apareceu em estúdio com um saxofone novo só para o mostrar e lancei-lhe o desafio: pus a música a correr e disse-lhe para tocar o que lhe desse na real gana por cima. O resultado está no álbum, gravado praticamente ao primeiro take apenas com pequenos ajustes à mistura.
A produção do álbum apresenta uma identidade sonora muito própria. Houve alguma preocupação em criar uma "atmosfera espacial" que transportasse o ouvinte para outro lugar? O que está no álbum é exatamente o que querias que escutássemos?
Não está tão boa quanto gostaria, mas ainda assim, como dizes, pelo menos tem uma identidade própria e única. Se podia ser melhor? Podia! Mas foi o melhor que conseguimos com os parcos
conhecimentos e meios à disposição. Prefiro que assim seja a soar a outros milhentos projetos que por aí proliferam, alguns até muito bons, mas cuja produção estéril, plástica e descartável deita tudo por terra, descaracterizando completamente a cena, tornando-a desprovida de sentimentos, alma e feeling.
Quais foram as maiores influências musicais durante a criação deste disco? Houve artistas, bandas ou até filmes e livros que marcaram o processo?
Ninguém em específico, mas as minhas influências vêm dos anos 70, filmes de ficção cientifica, bandas como Yes, Pink Floyd e até José Cid, bandas de rock prog psicadélico e algumas bandas
sonoras, mas com todas essas influencias em mente não me colei a nada em concreto e criei a minha própria sonoridade, acho eu, que não percebo nada disto!
Fala-nos um pouco dos temas. Que mensagem pretendes transmitir com cada um deles?
Quando criei ou concebi este álbum, "53 490 000 Anos Luz", o meu grande objetivo foi transformar a imensidão fria do cosmos numa espécie de espelho para as nossas próprias emoções, dúvidas e viagens existenciais. Quis usar como metáfora para aquilo que sentimos cá em baixo.
Cápsula Do Tempo: com este tema, quis capturar a necessidade urgente que todos temos de guardar memórias, momentos e a nossa essência antes que o tempo os leve. É sobre o legado, a passagem fugaz dos anos e o que escolhemos deixar gravado para quem vier a seguir.
Radiação Sincrotrónica: Inspirei-me neste fenómeno de alta energia para falar sobre pressão, aceleração e aquelas alturas da vida em que nos sentimos empurrados ao limite. É a representação sonora da rutura, da energia caótica e da força avassaladora que às vezes parece passar por cima de nós.
Gravidade Zero: Aqui, quis explorar a sensação de soltar todas as amarras. Estar em "gravidade zero" é perder o controlo, ficar à deriva num espaço sem rumo, mas é também sobre encontrar uma certa paz e aceitação quando percebemos que nem tudo na vida precisa de ter um chão firme debaixo dos pés.
Messier 87: Olhar para esta galáxia e para o seu colosso cósmico serviu-me de pretexto para falar sobre a nossa própria pequenez. Quis transmitir um misto de espanto e humildade: quando nos confrontamos com a vastidão do universo, percebemos quão diminutos são os nossos problemas do dia a dia.
Buraco Negro Supermassivo: Este é o ponto de não retorno e o clímax da viagem. O buraco negro supermassivo é para mim o símbolo do mistério absoluto, daquela força gravitacional que nos consome e desfaz velhas estruturas. Mas quis que fosse também uma mensagem de transformação profunda: o fim de um ciclo que abre espaço para um renascimento a partir do vazio.
No fundo, com este disco, quis fazer uma viagem que não é apenas para fora, em direção às estrelas, mas sim para dentro de ti próprio.
A capa do álbum é o primeiro contacto que o público tem com esta viagem. Como surgiu o conceito visual e de que forma dialoga com a música?
A criação da capa assentou numa abordagem mista, e foi inteiramente criada por mim, usei inteligência artificial como base criativa para explorar texturas cósmicas, seguida de um minucioso trabalho de correção e aprimoramento manual, para que não haja dúvidas, não tenho problemas em admitir que usei tecnologia disponível para criar a arte gráfica. Esta simbiose entre tecnologia e intervenção humana retrata a própria identidade do projeto que cruza a frieza do cosmos com a expressividade orgânica e visceral dos instrumentos, transporta o
ouvinte para essa escala monumental, a sensação de isolamento e vastidão que encontramos nos temas.
Musicalmente, o álbum funde sonoridades densas do metal com a liberdade improvisada do jazz progressivo e texturas avant-garde. Visualmente, a capa traduz essa complexidade através de contrastes entre a escuridão profunda do espaço e feixes de luz ou energia.
A capa não é apenas um adorno, é o primeiro "ponto de gravidade" que puxa o ouvinte para dentro da órbita sonora do grupo e que convida a uma introspeção profunda sobre o tempo, o espaço e a condição existencial.
Apesar de serem “apenas” cinco temas, 53 490 000 Anos Luz exige do ouvinte tempo, atenção, disponibilidade e total entrega para que seja sentido e entendido em pleno. Numa época como aquela em que vivemos em que a música (e tudo o resto) é
consumida de forma cada vez mais rápida, porque faz sentido continuar a apostar em álbuns conceptuais que pedem tempo e atenção ao ouvinte?
Numa época em que tudo corre à velocidade da luz apostar num álbum conceptual como 53 490 000 Anos Luz faz todo o sentido para mim, porque a verdadeira música com alma e sentimento não procura o sucesso imediato ou os gostos fáceis (likes) das massas mas sim tocar quem realmente para para ouvir e sentir cada tema sem pressas nem merdas, eu acredito que haverá sempre esse alguém, algures no universo.
Como surgiu a Spectral Works?
Todas as editoras com quem tenho contacto são direcionadas para a vertente heavy metal logo isto não se adequava ao seus catálogos, então pedi ajuda a um amigo que está envolvido no meio, disponibilizei o álbum para ele ouvir no intuito de me dar dicas a quem recorrer com a finalidade de lançar o produto fisicamente, ele aconselhou-me contactar a Ethereal Sound Works, que se revelou um tiro certeiro, após o contacto enviei a musica o artwork e o conceito e no dia seguinte tinha o Ok da Editora, não para sair pela Ethereal Sound Works mas sim pela Spectral Works, uma subsidiária da ESW. Esta nova divisão foi criada para dar foco e espaço editorial a sonoridades específicas, projetos conceptuais e vertentes mais avant-garde, metal e progressivas, onde Buraco Negro se encaixa naturalmente.
Como têm sido as reações a este trabalho?
As reações foram incrivelmente positivas, eu não esperava nada e fiquei deveras surpreendido com o feedback que recebi da generalidade das pessoas. Infelizmente isso não se traduz em vendas e apoios, mas isso já não é nada que me surpreenda, claro que tenho sempre aquele pequeno nicho de conhecidos e amigos que me apoiam, não sei se por vergonha ou caridade, mas o tuga por norma prefere o que vem de fora e desvaloriza o que é nosso.
Sendo os temas de forte componente instrumental, como e onde vês a possibilidade de os apresentar ao vivo?
Isto tinha de ser no mínimo num Coliseu, não pela quantidade do público que iria aderir ao evento, mas pelas dimensões do palco, pois para recriar tudo o que acontece no álbum só com uma orquestra completa, ou então podemos sempre usar as tecnologias e levar 80% da música já pronta a ser reproduzida sem falhas como a maioria das grandes bandas.
Para terminar, que mensagem envias a alguém que esteja a 53 490 000 Anos Luz de distância de ouvir este disco?
Se estás a 53 490 000 anos-luz de distância e ainda não ouviste este álbum, deves ter uma desculpa esfarrapada, ou a tua internet galáctica é do tempo da pré-história. A essa velocidade supersónica, o som vai demorar tanto tempo a chegar que é mais provável os alienígenas colonizarem a Terra do que tu conseguires apanhar o refrão da “Cápsula do Tempo”. Por isso, despacha-te a tirar o pó aos auscultadores antes que o universo decida fechar para balanço. Afinal, a vida é demasiado curta para continuar a perder os melhores discos da galáxia só porque decidiste tirar uma sesta intergaláctica que já dura desde a era dos dinossauros. Ouve isto de uma vez por todas e deixa o espaço em silêncio por uns minutos!




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