Djamblê, 25 anos de rebeldia, mistura e verdade
Diretamente de Limeira, no interior de São Paulo, os Djamblê construíram, ao longo de mais de duas décadas, uma trajetória sólida e autêntica. Misturando rock, reggae, funk, rap, jazz e dub, a banda tornou-se um símbolo de resistência e criatividade fora dos grandes centros. Nesta conversa, Pedro Gamba, fundador e baixista, reflete sobre o percurso da banda, a cena independente, o poder das mensagens e os planos para o futuro.
Vocês nasceram fora do eixo tradicional da indústria musical, em Limeira, e mesmo assim construíram uma trajetória sólida e original. Como foi afirmar a vossa identidade nesse cenário, muitas vezes centralizado em grandes metrópoles?
Só quem não nasce nos grandes centros sabe a real dificuldade de se estabelecer no meio. Isso nunca foi um problema para nós, que sempre afirmámos que somos caipiras mesmo, e que aqui também se faz arte como nas capitais. A cena ferve tanto quanto lá, e quando as bandas das capitais vêm para o interior percebem isso. Os nossos concertos nas capitais sempre foram mais frios. Aqui, o público interage mais, quer conhecer-nos e estar perto, compra os CDs e as camisolas. Parece tudo muito mais verdadeiro. Não irmos viver para os grandes centros fez-nos perceber isso com clareza.
A mistura de estilos como rock, rap, reggae, funk, jazz e dub é uma das marcas mais fortes da banda. Como encontraram esse som tão característico e como ele evoluiu ao longo destes mais de 25 anos?
Sempre foi algo natural. Desde o primeiro ensaio, quando percebíamos que uma música se parecia com outra, já abandonávamos a ideia e tentávamos fazer algo diferente. Usamos as influências sem clichês, sem medo de julgamentos e sem preconceitos de estilo. Adoramos fazer música e misturar tudo. A cada nova formação, com músicos a entrar e a sair, isso foi ficando mais forte. Sempre demos plena liberdade a quem chega para colocar as suas próprias influências.
Desde o início, vocês optaram por letras em português e abordagens que não evitam o quotidiano, a crítica e a fé. Como equilibram a densidade das mensagens com a proposta inicial de fazer música para divertir a galera?
Tal como as mistras de estilos, isso aconteceu naturalmente. No punk, protestamos. No reggae, carregamos mais espiritualidade e fé. Criticamos o sistema e exaltamos as virtudes humanas. O que ainda não conseguimos é fazer letras vazias, sem uma pitada de protesto ou revolta. As mensagens têm sempre de ter um conteúdo que traga conhecimento ou esclarecimento.
Vocês já dividiram palco com grandes nomes do mainstream e participaram em importantes coletâneas e tributos. O que mais vos marcou nesses encontros? Alguma história inesquecível?
Partilhar o palco com artistas que admiramos é sempre especial. Tocar com os Fugazi foi incrível, pelo que representam no underground mundial. Fizemos também uma tour de cinco concertos seguidos com O Rappa, e foi brutal. Eles estavam no auge, com salas cheias e uma estrutura enorme. Os tributos também são experiências fantásticas, a nossa forma de homenagear amigos e valorizar as canções autorais.
Apesar de desafios como mudanças na formação e questões de saúde, a banda nunca parou completamente. O que mantém viva a chama? Que papel têm a persistência e a cena independente nessa longevidade?
Parar, jamais. Foi muito difícil quando o Naninho, o meu irmão, adoeceu e nos deixou. Mas naquele momento eu sabia que a banda não ia deixar a bola cair. Todos nessa formação deram a maior força para que tudo ficasse mais leve, e ele viu isso. Mantivemos as datas, os concertos e até o lançamento do álbum “Ninguém Está Ileso”, no qual ele toca baixo e bateria em várias faixas. Era isso que ele queria. Estamos aqui, ainda a dar murros em ponta de faca. Na verdade, é isso que me motiva a continuar. Sempre quisemos ter uma banda que envelhecesse junta, a fazer discos e digressões.Projetos como o “Djamblê Convida” e as participações em tributos mostram um envolvimento forte com outras bandas do underground. Como veem o papel da colaboração e da coletividade na cena musical atual?
Temos muito esse espírito de coletivo e acreditamos nisso. O underground dos anos 90 era assim, todos mais unidos, e levamos essa filosofia para a vida. Ninguém faz nada sozinho. Hoje vejo isso menos presente, mas como vivemos dessa forma, a coisa acontece. Continuamos a envolver-nos em coletivos, coletâneas e tributos, trocando concertos e fortalecendo a cena.
Com novos singles a caminho e o tão aguardado vinil prestes a ser lançado, o que o público pode esperar nesta nova fase? Há uma mensagem central que querem transmitir?
A mensagem é que todos somos capazes de fazer o que amamos. A música leva-nos a lugares onde um trabalho formal nunca nos levaria. Faz-nos criar laços reais, partilhar experiências e crescer. As mudanças fazem parte do amadurecimento. Somos eternos revoltados contra o sistema, e esse é o terreno fértil para as nossas criações. Ainda há muita coisa neste mundo sobre a qual queremos falar.
(Entrevista de Miguel Correia)



Sem comentários:
Enviar um comentário